O número de consumidores sul-mato-grossenses incluídos na lista de inadimplentes alcançou, em 2025, o maior patamar da série histórica e já compromete mais da metade da população adulta do Estado. Dados da Serasa indicam que Mato Grosso do Sul registrou 127,7 mil novos cadastros de negativação ao longo dos 12 meses do ano passado, o que representa uma média de 505 novas inclusões por dia útil.
Em dezembro, 1.257.626 moradores de MS estavam com o nome negativado, equivalente a 58,12% da população. Juntos, esses consumidores acumulavam 5,69 milhões de dívidas, que somavam R$ 9,65 bilhões.
“Com 1,2 milhão de sul-mato-grossenses em situação de inadimplência, o Estado acumula mais de 5 milhões de débitos em aberto”, afirmou Aline Maciel, diretora da Serasa. Segundo o levantamento, dívidas com bancos e cartões de crédito lideram como principal causa, concentrando 27,36% do total.
Na sequência, aparecem dívidas financeiras (18,14%), contas básicas de serviços como energia e telefonia (16,17%), serviços (14,95%), varejo (9,83%), telecom (4,45%), securitizadoras (3,31%) e cooperativas (3,16%).
“A última queda foi registrada em dezembro de 2024. Para todas as idades, regularizar as contas é o primeiro passo para sair do vermelho e retomar o controle da vida financeira”, disse Patrícia Camillo, gerente da Serasa.
Para o mestre em Economia Eugênio Pavão, o cenário se agravou a partir da pandemia, quando muitas famílias passaram a enfrentar dificuldades para quitar compromissos e entraram em um ciclo contínuo de endividamento. “A pandemia trouxe muita dívida para a população, e algumas não conseguem quitar essas contas, necessitando de recursos extras para isso, entrando em novas dívidas para pagar as antigas”, explicou.
Com a perda do poder de compra e o aumento do custo de vida, o crédito passou a ser utilizado como extensão da renda. Na avaliação de Pavão, o comportamento torna o endividamento uma condição de sobrevivência. “Estamos diante de um endividamento estrutural, que não é mais apenas fruto de consumo, mas de sobrevivência”, afirmou.
Campo Grande concentra o maior volume de inadimplentes no Estado, com 490.438 consumidores com pendências financeiras. Eles acumulam 2.542.624 dívidas, que somam R$ 4,44 bilhões. O ticket médio por inadimplente é de R$ 9.062,62.
Na sequência aparece Dourados, com 105.540 nomes negativados e um total de R$ 819,3 milhões em dívidas. Três Lagoas e Corumbá também registram números expressivos, com dívidas médias por consumidor de R$ 7,2 mil e R$ 6,9 mil, respectivamente.
De acordo com o economista Eduardo Matos, o sistema financeiro brasileiro oferece amplo acesso ao crédito, o que pode ser positivo, mas também perigoso diante da falta de educação financeira.
“Um acesso mais facilitado a instrumentos de crédito de alto risco, como os cartões de crédito e limite do cheque especial, se tornam armas na mão do cidadão brasileiro. Porque a partir do momento em que ele tem à sua disposição esse tipo de crédito, ele usará e, em muitos casos, usará até mesmo sem pensar ou interpretá-lo como uma extensão de sua renda, que não é verdade”, avaliou.
Matos também destacou que a inadimplência é ainda mais intensa entre quem ganha um salário mínimo. “Os salários não dão conta dos pagamentos das necessidades básicas, mesmo com o aperto monetário, o salário mínimo não contempla as necessidades básicas”, concluiu.
