Mato Grosso do Sul elevou de 47,4% para 66% a proporção de crianças alfabetizadas na idade adequada entre 2023 e 2025. O avanço ocorreu no âmbito do MS Alfabetiza, programa que reúne o Governo do Estado e os 79 municípios em ações de formação de professores, avaliações periódicas, acompanhamento das escolas e apoio pedagógico.
O crescimento é expressivo, mas os próprios números revelam o tamanho do desafio: aproximadamente uma em cada três crianças ainda termina o segundo ano do Ensino Fundamental sem alcançar o nível esperado de alfabetização.
Por trás das estatísticas estão histórias como a de Luiz Otávio. Quando ingressou no 1º ano da Escola Estadual Ulisses Serra, em Campo Grande, em 2025, antes de aprender a ler ele precisou superar uma dificuldade mais imediata: permanecer na escola.
A mãe, Nilza de Souza Benevides, conta que o menino chorava com frequência e enfrentava problemas para se adaptar à nova rotina. Segundo ela, o acolhimento da professora alfabetizadora Anna Paula Pedrozo foi fundamental.
“Ele chorava bastante e teve muitos problemas no começo. Ela soube acolhê-lo e trazê-lo para o mundo escolar”, relata.
A experiência mostra que a alfabetização não começa apenas com letras, sílabas e palavras. Para muitas crianças, passa também pela construção de vínculo com a escola, pelo ambiente familiar e pelas condições em que chegam à sala de aula.
Resultado cresceu ano a ano
Em 2023, Mato Grosso do Sul tinha 47,4% das crianças alfabetizadas na idade considerada adequada.
No ano seguinte, o índice chegou a 55,8%. Em 2025, avançou novamente, alcançando 66%, resultado divulgado em 2026.
O Indicador Criança Alfabetizada mede o desempenho dos estudantes ao final do segundo ano do Ensino Fundamental.
Para atingir o padrão esperado, a criança precisa demonstrar capacidade para ler palavras, frases e pequenos textos, localizar informações, compreender sentidos básicos e produzir textos simples, como bilhetes e convites.
O domínio dessas habilidades é considerado decisivo para o restante da trajetória escolar. Dificuldades de leitura e escrita nos primeiros anos tendem a comprometer também o aprendizado de matemática, ciências, história e outras disciplinas.
Cada criança começa de um ponto diferente
Professora concursada há 21 anos e com mais de 13 anos de experiência em turmas de 1º e 2º ano, Anna Paula afirma que o trabalho começa pela identificação do estágio de aprendizagem de cada aluno.
“Realizo uma avaliação diagnóstica para conhecer a realidade de cada aluno e, em seguida, proponho atividades diferenciadas que favoreçam a participação de todos”, explica.
As diferenças aparecem desde os primeiros dias.
Enquanto algumas crianças convivem com livros e histórias desde cedo e contam com familiares capazes de acompanhar a rotina escolar, outras encontram na escola o primeiro contato frequente com práticas de leitura e escrita.
Fatores como renda, escolaridade dos pais, acesso à Educação Infantil e condições sociais também podem interferir na aprendizagem.
É por isso que melhorar a alfabetização não depende apenas de uma técnica aplicada dentro da sala de aula. O processo envolve também o enfrentamento de desigualdades que muitas vezes antecedem a entrada da criança no Ensino Fundamental.
Formação de professores é uma das apostas
Uma das principais frentes do MS Alfabetiza é a formação continuada dos profissionais responsáveis pelos primeiros anos escolares.
Anna Paula considera a troca de experiências entre professores uma ferramenta importante para encontrar novas estratégias de ensino.
“Ter um momento de pausa para realizar uma formação específica em alfabetização é fundamental. Ao dialogar com as colegas, percebo que nossas angústias são as mesmas”, afirma.
Segundo ela, o contato com outros educadores permite conhecer intervenções pedagógicas que podem ser adaptadas à realidade de cada turma.
“Quando ficamos focadas apenas na própria sala, torna-se mais difícil implementar novas intervenções. No programa, conseguimos compartilhar experiências e conhecer caminhos didáticos viáveis para aplicar com os alunos.”
Entre as referências utilizadas está o conceito de “alfaletrar”, que busca combinar o aprendizado do sistema de escrita com situações concretas em que leitura e escrita fazem parte do cotidiano.
Programa reúne todos os municípios
Criado em 2021, o MS Alfabetiza funciona em regime de colaboração entre o Estado e as 79 prefeituras de Mato Grosso do Sul.
A articulação é especialmente importante porque grande parte dos estudantes dos primeiros anos do Ensino Fundamental está matriculada nas redes municipais.
O programa inclui formação de professores e gestores, avaliações de aprendizagem, acompanhamento de indicadores, material complementar e apoio às escolas.
A ideia é permitir que municípios com estruturas e resultados diferentes trabalhem dentro de metas comuns e recebam suporte para enfrentar dificuldades específicas.
Na gestão do governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, o programa tornou-se uma das principais iniciativas estaduais voltadas aos anos iniciais do Ensino Fundamental.
R$ 3,6 milhões para escolas
Em 2025, o Estado destinou R$ 3,6 milhões ao Prêmio Escolas Destaque, iniciativa destinada a reconhecer unidades com bons índices de alfabetização e apoiar escolas que ainda apresentavam resultados inferiores.
Trinta escolas selecionadas tiveram previsão de receber R$ 80 mil cada. Outras 30 unidades apoiadas poderiam receber R$ 40 mil.
Além do repasse financeiro, o modelo busca promover intercâmbio entre escolas com diferentes níveis de desempenho.
Para a coordenadora estadual do MS Alfabetiza, Maria Gorete Siqueira Silva, o acompanhamento dos indicadores permite direcionar as decisões pedagógicas.
Segundo ela, os resultados estão relacionados ao fortalecimento das práticas de ensino, à gestão escolar e ao uso das avaliações como instrumento para definir intervenções.
43 municípios receberam Selo Ouro
Com o avanço registrado em 2025, Mato Grosso do Sul e 43 municípios do Estado receberam o Selo Ouro Nacional do Compromisso com a Alfabetização.
Entre 2023 e 2024, quando o índice passou de 47,4% para 55,8%, MS já havia apresentado uma das maiores evoluções proporcionais do país.
O avanço para 66% reforçou a tendência positiva.
Ainda assim, o dado estadual não significa que a realidade seja uniforme.
As médias podem esconder diferenças importantes entre municípios, escolas, bairros, áreas rurais, comunidades indígenas e regiões de fronteira.
O desafio dos 34% que ainda ficaram para trás
Se 66% das crianças atingiram o padrão esperado, 34% ainda não conseguiram alcançar o mesmo nível.
Chegar a esse grupo passa a ser a principal dificuldade da próxima etapa.
Isso exigirá identificar onde estão as maiores defasagens, acompanhar os alunos individualmente, manter a formação dos professores e ampliar estratégias de recomposição da aprendizagem.
O programa também prevê intervenções para estudantes do terceiro ao quinto ano que avançaram de série sem dominar plenamente leitura e escrita.
Outro desafio é não transformar o patamar mínimo de alfabetização em ponto de chegada.
Depois de aprender a decodificar palavras e pequenos textos, a criança ainda precisa desenvolver fluência, vocabulário, interpretação e capacidade de produzir textos mais complexos.
Mais do que uma estatística
No caso de Luiz Otávio, a alfabetização começou antes da leitura das primeiras palavras.
Começou quando o menino, que inicialmente chorava para permanecer na escola, conseguiu estabelecer vínculo com a professora e com aquele novo ambiente.
Nilza afirma que percebeu mudanças no desenvolvimento do filho ao longo do ano.
A relação com a professora ganhou ainda um desdobramento pouco comum: atualmente, a própria mãe é aluna de Anna Paula no magistério.
“Tenho muito a agradecer à professora Anna Paula. Hoje tenho o prazer de estudar com ela e de tê-la como minha professora”, conta.
A trajetória ajuda a traduzir o que os 66% representam fora das planilhas.
O avanço mostra que Mato Grosso do Sul conseguiu ampliar significativamente a parcela de crianças alfabetizadas nos últimos anos. Os 34% que ainda não chegaram ao patamar esperado, entretanto, indicam que a política terá de avançar justamente sobre os casos em que ensinar a ler e escrever continua sendo mais difícil.
