A disputa entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) pelo controle de territórios e das rotas do tráfico de drogas em Mato Grosso do Sul já pode ter provocado mais de 100 mortes somente neste ano. A avaliação é do promotor de Justiça Felipe Almeida Marques, coordenador da Unidade de Investigação de Crimes Cibernéticos (UICC) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
Segundo o promotor, 2026 pode ser considerado o período mais sangrento da guerra entre as duas maiores organizações criminosas do País dentro do Estado.
“A guerra de facções já está aí há um tempo, e ela já fez várias vítimas aqui do Estado. A gente não tem o número exato, mas, talvez, seja o ano mais sangrento de Mato Grosso do Sul nessa guerra de facções. Mais de 100 [já morreram] só aqui”, afirmou Marques.
A escalada da violência está relacionada à tentativa das duas facções de ampliar o domínio sobre corredores utilizados para o transporte de drogas que entram no Brasil pelas fronteiras com Paraguai e Bolívia.
A posição geográfica de Mato Grosso do Sul tornou o Estado estratégico para o crime organizado. Além de fazer fronteira internacional com dois dos principais países utilizados nas rotas do narcotráfico, o território sul-mato-grossense também serve de ligação com grandes centros consumidores do País.
Historicamente, o PCC possui forte presença em Mato Grosso do Sul, considerado um dos estados com maior número de integrantes da organização fora de São Paulo.
Esse domínio passou a ser desafiado pelo Comando Vermelho, principalmente na região norte do Estado, próxima à divisa com Mato Grosso, onde a facção de origem carioca mantém presença significativa.
A disputa ganhou força a partir de maio do ano passado, quando as duas organizações romperam um período de trégua entre suas lideranças. Desde então, confrontos, execuções e ameaças passaram a fazer parte da ofensiva pelo controle de territórios.
Forças de segurança ampliam ofensiva
Além das mortes provocadas diretamente pelos confrontos entre integrantes das organizações, operações policiais também têm resultado em confrontos e prisões de suspeitos ligados às facções.
Desde o início deste ano, as forças de segurança de Mato Grosso do Sul intensificaram operações para impedir o avanço das organizações criminosas.
Em maio, o então titular da Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras), delegado Hoffman D’Ávila, classificou as ações como parte de uma estratégia conjunta.
“Trata-se de uma ofensiva integrada entre todas as forças de segurança do Estado de Mato Grosso do Sul no combate às organizações criminosas”, afirmou.
Naquele mês, uma operação do Garras cumpriu dez mandados de busca e apreensão e cinco de prisão em Coxim, na região norte de Mato Grosso do Sul, próxima à divisa com Mato Grosso.
Segundo D’Ávila, os investigados eram integrantes de facções que estariam migrando de Mato Grosso para Mato Grosso do Sul com o objetivo de ampliar o domínio territorial.
“Todos esses alvos são faccionados e as investigações indicam que eles estão migrando de Mato Grosso para Mato Grosso do Sul na tentativa de promover o domínio territorial e social, resultando em mortes, caos, temor da população, insegurança social e jurídica”, declarou na ocasião.
Outras operações foram desencadeadas posteriormente.
Em junho, por exemplo, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) realizou a Operação Malleus em Campo Grande, Água Clara e Corumbá.
Durante a ação, cinco integrantes considerados de alta periculosidade e ligados ao PCC foram presos na Capital. De acordo com as forças de segurança, os investigados possuíam histórico de reincidência em crimes hediondos.
Lista reúne pessoas marcadas para morrer
A dimensão da guerra entre as facções também apareceu nas redes sociais. Pelo menos 24 pessoas ligadas ou supostamente vinculadas ao PCC em Mato Grosso do Sul teriam sido colocadas em uma lista de pessoas marcadas para morrer.
As ameaças foram divulgadas por meio de perfis atribuídos a integrantes do Comando Vermelho. Pelo menos duas pessoas que apareceram nas publicações já teriam sido assassinadas.
As postagens levaram o MPMS a abrir investigação e realizar uma operação que terminou com a prisão, em Juscimeira (MT), de um jovem suspeito de administrar os perfis responsáveis pelas ameaças.
Pablo da Silva Santos, de 19 anos, seria responsável por contas no TikTok e no Instagram utilizadas para divulgar fotografias de pessoas apontadas como integrantes do PCC e que estariam juradas de morte.
Felipe Almeida Marques explicou que a investigação surgiu a partir do acompanhamento das redes sociais.
“A gente já tinha informação de que existiam perfis no TikTok e no Instagram publicando ameaças para a população, imputando a participação ou a vinculação com o PCC. E aí, a partir do monitoramento desses perfis na internet, a gente começou a fazer a investigação sobre quem seriam as pessoas que estariam por trás desses perfis e chegamos à pessoa do Pablo Silva Santos”, relatou.
As investigações ganharam urgência depois que uma das pessoas expostas nas redes sociais foi assassinada poucos dias após aparecer nas publicações.
Márcio Aparecido da Silva Filho, de 27 anos, conhecido como Márcio Pelé, foi morto em Cassilândia no dia 1º de agosto. A enteada dele, uma menina de apenas 3 anos e 8 meses, também morreu no ataque.
Os dois estavam dentro de um veículo quando foram surpreendidos pelos disparos.
Disputa pelas rotas da cocaína
O secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, já apontou o crescimento da oferta de cocaína e a disputa pelas rotas de distribuição como fatores que ajudam a explicar o avanço da guerra entre as facções.
Segundo Videira, desde a pandemia de Covid-19, em 2020, países produtores como Bolívia, Peru e Colômbia passaram a registrar aumento da produção da droga.
Com maior disponibilidade, o preço da cocaína na origem caiu, ampliando a oferta e a rentabilidade do mercado ilegal.
Esse cenário tornou ainda mais valiosas as rotas que atravessam Mato Grosso do Sul, tanto nas fronteiras internacionais quanto nas divisas com outros estados.
“Não só nas fronteiras, mas nas divisas de Mato Grosso do Sul também. Há uma disputa entre as facções pelo controle do tráfico de drogas e pelas melhores rotas. No norte do Estado, o Comando Vermelho tenta entrar em Mato Grosso do Sul, que tem mais integrantes do PCC. Mas temos acompanhado de perto essa questão”, afirmou Videira em agosto de 2025.
Com a pressão do Comando Vermelho sobre áreas historicamente controladas pelo PCC e a intensificação da reação das forças de segurança, a disputa territorial transformou Mato Grosso do Sul em um dos principais pontos de tensão entre as duas organizações criminosas em 2026.
