O avanço das apostas on-line começa a produzir uma nova onda de processos na Justiça de Mato Grosso do Sul. Em pelo menos 11 ações analisadas, pessoas que afirmam sofrer de ludopatia, o vício em jogos, tentam recuperar valores perdidos em plataformas como Betano, Blaze, Superbet e Bet365.
Somados, esses apostadores movimentaram mais de R$ 22,7 milhões dentro dos sistemas das empresas. Considerando o dinheiro efetivamente transferido das contas bancárias e os valores sacados, o prejuízo líquido chega a aproximadamente R$ 1,73 milhão.
Os processos mostram que a diferença entre as perdas efetivas e o gigantesco volume movimentado decorre da repetição das apostas. Valores eventualmente ganhos permaneciam nas plataformas e eram utilizados em novas operações, aumentando de forma sucessiva o chamado turnover, ou giro financeiro.
Nos 11 casos, os depósitos realizados principalmente por Pix chegaram a R$ 4,75 milhões, enquanto os saques efetivamente devolvidos às contas bancárias ficaram em pouco mais de R$ 3 milhões. Advogados dos apostadores sustentam nas ações que o comportamento revela um quadro de vulnerabilidade provocado pela compulsão.
Servidor movimentou R$ 9,5 milhões
Um dos processos envolve um funcionário de empresa pública que utilizou exclusivamente a Betano durante aproximadamente três anos. Nesse período, o sistema registrou R$ 9,5 milhões em depósitos contábeis e R$ 8,79 milhões em saques, resultando em perda de R$ 715,7 mil dentro da plataforma.
Somente em apostas esportivas, o giro bruto chegou a R$ 6,16 milhões, distribuído em quase duas mil operações.
Quando consideradas apenas as transferências bancárias efetivas, o usuário depositou R$ 1,337 milhão via Pix e conseguiu sacar R$ 740,3 mil. A diferença representa prejuízo de aproximadamente R$ 597 mil.
Com rendimento líquido mensal de cerca de R$ 4,2 mil, segundo os autos, ele passou a recorrer a empréstimos e crédito consignado para continuar apostando. Em determinado momento, chegou a contratar financiamento de quase R$ 200 mil oferecendo o próprio imóvel como garantia.
A ação pede a restituição das perdas e sustenta que, após a identificação do quadro de ludopatia, as apostas realizadas deveriam ser consideradas inválidas nos termos da legislação utilizada pela defesa.
Policial chegou a apostar durante 24 horas
Outro processo envolve um policial militar com salário aproximado de R$ 5 mil. Relatórios apresentados na ação indicam movimentação superior a R$ 4,65 milhões entre apostas esportivas e cassino.
O histórico aponta sessões que chegaram a durar 24 horas, além de dias em que foram realizadas até 110 apostas.
Os depósitos bancários somaram R$ 922,3 mil, enquanto os saques chegaram a R$ 798,4 mil. Após março de 2023, período apontado no processo como marco da intensificação da compulsão, o prejuízo líquido calculado ficou em R$ 114,3 mil.
A defesa pede R$ 168,6 mil por danos materiais. Conforme relatado na ação, a dependência também teria provocado consequências familiares e profissionais, como divórcio, afastamento do trabalho e necessidade de tratamento psiquiátrico.
Conta suspensa foi reativada
O caso de uma administradora de empresas de Campo Grande envolve a Superbet. Segundo os autos, a própria plataforma chegou a identificar comportamento considerado atípico e suspendeu temporariamente a conta da cliente.
Em abril de 2025, porém, a conta foi reativada. A partir daí, a mulher realizou depósitos que somaram R$ 1,49 milhão. Os saques totalizaram R$ 943,5 mil.
A diferença representa perda líquida de R$ 555,5 mil. A ação sustenta que a empresa deveria ter mantido mecanismos de proteção após identificar indícios de comportamento compulsivo.
Vendedor perdeu dinheiro e patrimônio
Também está na Justiça o caso de um vendedor que teria desenvolvido ludopatia durante o período de isolamento provocado pela pandemia.
Extratos apresentados no processo mostram R$ 175 mil em depósitos via Pix e movimentação superior a R$ 525 mil em jogos de cassino. O prejuízo parcial calculado ficou em R$ 40,5 mil, embora familiares estimem que as perdas totais tenham ultrapassado R$ 60 mil.
Segundo a ação, a situação financeira se deteriorou a ponto de o trabalhador vender bens da residência para obter dinheiro. O quadro teria contribuído ainda para o fim do casamento e para que a filha, então com seis anos, passasse a ficar sob os cuidados dos avós.
Gerente perdeu emprego e acumulou R$ 200 mil em dívidas
Outro apostador trabalhava havia oito anos como gerente de uma grande loja de departamentos da Capital. Conforme os documentos apresentados ao Judiciário, ele passou a utilizar a plataforma Blaze inclusive durante o expediente.
Em 2025, movimentou aproximadamente R$ 2,47 milhões em apostas, contra R$ 2,34 milhões registrados como ganhos, acumulando perda líquida de R$ 127,6 mil.
A compulsão teria provocado queda de produtividade e, posteriormente, a perda do emprego.
O gerente afirma ainda ter contraído cerca de R$ 200 mil em dívidas bancárias e vendido o próprio veículo para financiar as apostas. A ação pede ressarcimento mínimo desse mesmo valor.
Jovem fez 208 depósitos e não sacou nada
Um dos casos mais extremos envolve um trabalhador de Campo Grande de apenas 24 anos. Segundo o processo, foram realizadas 208 transferências para a Blaze, totalizando R$ 246,3 mil.
Os registros apresentados na ação indicam que não houve nenhum saque compensado.
Apesar de ter colocado R$ 246 mil na plataforma, o jovem movimentou aproximadamente R$ 915,7 mil com a repetição das apostas.
A defesa relata que grande parte do dinheiro veio de empréstimos e que o endividamento passou a comprometer até despesas básicas, como contas de energia elétrica.
Motorista de aplicativo estima perda superior a R$ 300 mil
Um motorista de aplicativo afirma ter perdido R$ 99,3 mil em apenas um ano, sendo R$ 75,8 mil em apostas esportivas e R$ 23,4 mil em cassino.
Considerando todo o período desde 2018, entretanto, ele estima que as perdas tenham ultrapassado R$ 300 mil.
Conforme relatado ao Judiciário, os problemas financeiros chegaram a provocar atraso na mensalidade escolar da filha, suspensão do fornecimento de energia elétrica da residência e inadimplência em cartões de crédito.
Apostadores de Dourados também buscam ressarcimento
Em Dourados, um trabalhador temporário afirma ter acumulado prejuízo superior a R$ 100 mil. Segundo a ação, eram feitas dezenas de transferências por Pix diariamente, algumas delas de R$ 500, R$ 1 mil e até R$ 4 mil.
O endividamento teria comprometido gastos com saúde, moradia e alimentação.
Outro processo da cidade envolve um jovem desempregado de 23 anos. Conforme os autos, ele perdeu R$ 285,9 mil utilizando diferentes plataformas.
O dinheiro, segundo a ação, incluía as economias dos próprios pais. A defesa também afirma que, mesmo diante do comportamento compulsivo, o usuário continuou recebendo bônus e incentivos para realizar novas apostas.
Responsabilidade das plataformas chega aos tribunais
As ações discutem até que ponto as empresas responsáveis pelas apostas precisam identificar e interromper o acesso de clientes que apresentam sinais de compulsão.
Um dos principais argumentos utilizados pelos advogados é a Lei nº 14.790/2023, que regulamentou as apostas de quota fixa no País e estabeleceu restrições para pessoas diagnosticadas com ludopatia.
Para períodos anteriores à legislação, as defesas também recorrem ao Código de Defesa do Consumidor e argumentam que as plataformas possuem capacidade tecnológica para identificar padrões considerados anormais, como dezenas de depósitos no mesmo dia, longos períodos de conexão e apostas incompatíveis com a renda do usuário.
A discussão que agora chega ao Judiciário envolve justamente a responsabilidade das empresas diante desses sinais e a possibilidade de devolução dos valores aos consumidores.
Ludopatia compromete controle sobre o jogo
A ludopatia, também denominada transtorno do jogo, é caracterizada pela perda progressiva do controle sobre a necessidade de apostar.
Entre os comportamentos associados ao problema estão a necessidade de aumentar os valores apostados, ansiedade quando a pessoa tenta interromper o jogo e a tentativa repetitiva de recuperar perdas anteriores por meio de novas apostas.
Nos processos em andamento em Mato Grosso do Sul, esse ciclo aparece acompanhado de um denominador comum: endividamento elevado, comprometimento da renda familiar e repetição das apostas mesmo após prejuízos expressivos.
