O diário mantido pela fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, passou a integrar o conjunto de provas da investigação que levou o médico cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, a se tornar réu por feminicídio. Fabíola morreu com um tiro na cabeça no dia 18 de maio, e o marido sustenta que ela teria cometido suicídio.
Para a Polícia Civil, entretanto, as anotações deixadas pela vítima ajudam a demonstrar um relacionamento marcado por controle, ciúmes e violência psicológica antes da morte.
No inquérito, os investigadores classificam os escritos como um registro dos sentimentos de Fabíola e do medo que ela teria vivido dentro da relação. Em alguns dos relatos, a fisioterapeuta afirmava que não podia “olhar para ninguém” e nem “ter amigos homens”.
Segundo a investigação, mesmo reconhecendo o sofrimento vivido, Fabíola ainda fazia referências ao marido como “o homem que eu amo” e “a pessoa que acreditei ser o amor da minha vida”.
Para a Polícia Civil, essa aparente contradição seria compatível com o chamado ciclo da violência doméstica, caracterizado pela alternância entre períodos de tensão, agressões e reconciliação.
Os investigadores sustentam ainda que a violência psicológica teria criado o ambiente que antecedeu o feminicídio apontado no inquérito.
Testemunhas ouvidas durante a investigação também relataram que Fabíola vivia sob forte controle do marido. Conforme os depoimentos, ela não poderia sair sozinha, teria deixado de trabalhar e dependeria financeiramente de João Jazbik.
Dois dias antes de morrer, em 16 de maio, Fabíola escreveu uma mensagem interpretada pela defesa do médico como uma despedida.
“Estou indo para o meu lugar, ficar com a nossa mãe, lá vou ficar em paz. Amo todos vocês minha família”, escreveu.
A defesa sustenta que o texto reforça a versão de suicídio apresentada pelo cardiologista.
Perícia apontou feminicídio
A Polícia Civil e o Ministério Público de Mato Grosso do Sul chegaram a uma conclusão diferente. Laudos periciais usados na investigação indicam que Fabíola teria sido atingida por um disparo realizado a uma distância incompatível, segundo os investigadores, com um tiro efetuado pela própria vítima.
Uma bala localizada atrás de um quadro no cômodo onde ocorreu a morte também foi utilizada pelos peritos para reconstruir a trajetória do projétil.
A análise descartou, conforme consta na investigação, possibilidades de disparo contra si própria tanto na hipótese de Fabíola estar em pé quanto sentada no sofá existente no ambiente.
Outro elemento considerado pelos investigadores foi o exame realizado no corpo da fisioterapeuta. Os ferimentos, segundo a perícia, não apresentavam características esperadas de um disparo efetuado com a arma encostada na cabeça.
Também não foram encontrados resíduos de pólvora nas mãos de Fabíola. Já nos dedos de João Jazbik, conforme os autos, houve indicação da presença desse material.
Com base no conjunto dos elementos reunidos durante a apuração, a Polícia Civil indiciou o médico, e o Ministério Público apresentou denúncia por feminicídio e outros crimes. A acusação foi posteriormente recebida pela Justiça, tornando João Jazbik réu.
Médico foi preso e solto seis dias depois
Após a conclusão do inquérito, o juiz Aluízio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, determinou a prisão de João Jazbik. O mandado foi cumprido em 14 de agosto.
Seis dias depois, porém, uma decisão do desembargador Emerson Cafure, da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, autorizou o médico a responder ao processo em liberdade.
Na decisão, o magistrado considerou, entre outros pontos, a idade de 78 anos, a primariedade, a residência fixa e o quadro clínico cardíaco apresentado pela defesa.
O desembargador também entendeu que, naquele momento, não haviam sido apresentados fatos novos suficientes para justificar a manutenção da prisão preventiva.
João Jazbik deixou a prisão sem a obrigação de utilizar tornozeleira eletrônica.
Defesa contesta perícias e afirma inocência
A defesa do cardiologista afirma que irá contestar os laudos periciais utilizados como base para a denúncia e reafirma que João Jazbik é inocente.
Em nota, o advogado José Belga Assis Trad classificou como questionáveis a elaboração e as conclusões dos exames produzidos na investigação e afirmou que os argumentos defensivos serão apresentados formalmente durante o processo.
A defesa também destacou que o recebimento da denúncia não representa condenação e sustentou que qualquer conclusão definitiva antes do julgamento configuraria antecipação de culpa.
“Somente depois de oportunizado o contraditório nessa dimensão, os órgãos do Judiciário competentes, de forma isenta e racional, poderão formar o seu juízo e chegar a uma sentença definitiva”, afirmou a defesa.
O advogado ainda criticou a divulgação de informações consideradas sensíveis do processo e declarou que o réu tem direito ao devido processo legal.
Família defende trabalho da investigação
A família de Fabíola também se manifestou e rebateu as críticas feitas pela defesa às perícias.
Em nota divulgada por meio de advogado, os familiares defenderam o trabalho da delegada, das peritas, da médica legista e das promotoras envolvidas na investigação.
Segundo a manifestação, questionar provas faz parte do direito de defesa, mas classificar como “amador” ou “fantasioso” o trabalho técnico realizado pelas profissionais seria uma forma de desqualificação.
“A família confia na DEAM, na perícia, no IMOL, no Ministério Público e no Poder Judiciário”, diz trecho da manifestação.
Os familiares afirmaram ainda que continuarão buscando esclarecimentos e Justiça pela morte da fisioterapeuta.
O processo contra João Jazbik Neto segue em andamento. Como a denúncia ainda será analisada ao longo da ação penal, caberá à Justiça decidir, ao fim do processo e após a apresentação das provas e argumentos das partes, se o médico é ou não responsável pela morte de Fabíola.
Fonte: Primeira Página MS
