
Poucas coisas conseguem unir os brasileiros como a Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Durante algumas semanas, o país muda de ritmo. Famílias se reúnem, amigos se encontram, ruas são decoradas e milhões de pessoas acompanham cada partida com atenção quase religiosa.
Mas confesso que, nos últimos anos, algo parece diferente.
Continuo torcendo pelo Brasil. Como quase todos os brasileiros, quero ver nossa seleção levantar mais uma taça. Porém, a empolgação já não é a mesma de antigamente. E imagino que não seja o único a sentir isso.
Sou da geração que acompanhou a inesquecível Copa do Mundo da Espanha, em 1982. Aquele time não trouxe o título, mas conquistou o coração dos torcedores. Jogava bonito, transmitia alegria e parecia representar algo maior do que apenas um grupo de atletas disputando uma competição.
Depois vieram outras gerações memoráveis. Romário, Bebeto, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e tantos outros craques que ajudaram a construir a história do futebol brasileiro. Também atuavam no exterior e ganhavam muito dinheiro. Mas, quando vestiam a camisa amarela, parecia existir algo especial. Havia paixão, identidade e orgulho de representar o país.
Na seleção atual, infelizmente, nem sempre consigo enxergar isso. Vejo jogadores talentosos, mas que muitas vezes parecem carregar um peso em vez de uma honra. Poucos sorriem. Poucos demonstram aquela alegria espontânea que durante décadas foi uma das marcas do futebol brasileiro.
Talvez seja apenas uma impressão. Talvez os tempos tenham mudado. Mas o torcedor sente quando existe conexão entre quem está em campo e quem está na arquibancada. E essa ligação parece mais frágil do que já foi um dia.
A preocupação aumenta quando observamos também o aspecto técnico. O Brasil continua revelando grandes jogadores, mas faz tempo que não apresenta uma seleção capaz de despertar a mesma confiança das equipes do passado. Não faltam bons atletas. Falta, talvez, um conjunto capaz de transformar talento individual em futebol encantador.
Naturalmente, ninguém exige vitórias permanentes. O futebol sempre foi imprevisível. O próprio time de 1982 demonstrou isso. O que muitos torcedores sentem falta não é apenas dos títulos. É da identificação. É da sensação de que aqueles jogadores representam verdadeiramente a paixão de um povo que aprendeu a amar o futebol.
Continuarei torcendo pela seleção brasileira. Estarei diante da televisão nos próximos jogos, como sempre estive. Mas faço isso hoje com uma mistura de esperança e preocupação. Esperança de que o futebol brasileiro reencontre sua identidade. E preocupação de que estejamos perdendo algo que sempre nos diferenciou dos demais: a alegria de jogar bola.
Talvez o futuro ainda reserve grandes surpresas. O futebol brasileiro já provou inúmeras vezes sua capacidade de se reinventar. Mas, para voltar a conquistar plenamente o coração dos torcedores, a seleção precisará oferecer mais do que resultados. Precisará recuperar a paixão. Porque, sem ela, a camisa mais famosa do mundo corre o risco de continuar sendo apenas uma camisa. E nunca foi apenas isso.

