Pacientes ortopédicos da Santa Casa de Campo Grande que não forem submetidos à cirurgia em até 48 horas terão de ser retirados da chamada “fila invisível” do hospital e reinseridos no sistema estadual e municipal de regulação, para que possam ser encaminhados a outras unidades de saúde capazes de realizar os procedimentos. A medida foi determinada pela Justiça para impedir que doentes permaneçam por meses — e até anos — aguardando atendimento.
A decisão foi tomada durante audiência de conciliação realizada nesta quinta-feira (25), no Fórum de Campo Grande, em ações civis públicas propostas pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul. Participaram da audiência representantes da Santa Casa, da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) e do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
As ações foram motivadas por inspeções realizadas pela Defensoria no hospital, que identificaram uma extensa fila de pacientes aguardando a retirada de materiais de síntese — como hastes intramedulares, pinos e fixadores externos — utilizados em cirurgias ortopédicas. Em diversos casos, a espera ultrapassa meses e chega a mais de dois anos.
Entre os pacientes estão crianças de 4, 8 e 9 anos, adultos e uma idosa de 87 anos. Segundo a Defensoria, há pessoas aguardando desde abril de 2024 pela conclusão do tratamento.
Pelo acordo homologado na audiência, pacientes classificados como de baixa e média complexidade ortopédica que não forem operados em até 48 horas retornarão automaticamente ao sistema de regulação, permitindo que sejam encaminhados para hospitais com capacidade para realizar os procedimentos.
A coordenadora do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS) da Defensoria Pública, defensora Eni Maria Sezerino Diniz, afirmou que a medida busca impedir a formação de novas filas ocultas dentro da Santa Casa e dar mais transparência à demanda reprimida por cirurgias ortopédicas.
Além disso, a Justiça determinou que a Santa Casa apresente, no prazo de 15 dias, um levantamento detalhado com o número de pacientes que aguardam procedimentos ortopédicos pendentes.
Uma nova audiência foi marcada para 28 de julho, quando será avaliado o cumprimento das medidas e a evolução da fila de espera.
Morte expôs gravidade da demora
A demora na realização das cirurgias ganhou repercussão após a morte de Jussara Marisa Aparecida Pereira Delmondes, de 49 anos.
Ela sofreu uma fratura no fêmur no fim de 2024 e passou por cirurgia em janeiro de 2025 para implantação de uma haste intramedular. Após a consolidação da fratura, precisava retornar ao hospital para retirada do implante, mas enfrentou sucessivos adiamentos.
Mesmo depois de a família recorrer à Defensoria Pública em busca de uma decisão judicial que garantisse o procedimento, Jussara morreu em outubro de 2025.
A certidão de óbito aponta como causas da morte insuficiência respiratória aguda, choque séptico e infecção associada à haste intramedular, além da fratura sofrida anteriormente.
O caso tornou-se símbolo da demora na conclusão dos tratamentos ortopédicos na Santa Casa e reforçou a pressão para que medidas sejam adotadas a fim de reduzir o tempo de espera e evitar novos desfechos fatais.
