
Ando desconfiado de muita coisa no Brasil. Talvez seja efeito da idade. Talvez da experiência. Ou, simplesmente, da sensação de que, muitas vezes, aquilo que nos é apresentado como solução acaba produzindo exatamente o efeito contrário.
Tomemos como exemplo a reforma tributária. Ela foi vendida como a grande oportunidade de simplificar o sistema tributário brasileiro e, quem sabe, até reduzir a carga de impostos. Mas quantos realmente leram o texto aprovado? Basta um exame um pouco mais cuidadoso para perceber que a realidade parece bem diferente. O sistema continua complexo, a autonomia de Estados e Municípios sofre alterações importantes e muitos especialistas já alertam para aumento da carga tributária, especialmente sobre serviços. Espero sinceramente estar errado.
Outra dúvida me acompanha quando ouço falar da inflação oficial. Ela gira em torno de 5% ao ano. Mas basta fazer uma compra no supermercado, abastecer o carro ou pagar uma refeição fora de casa para surgir uma pergunta inevitável: será que esse número retrata mesmo o dia a dia das famílias brasileiras? A sensação de quem vive a economia real parece bastante diferente da estatística.
Também olho com preocupação para o cenário político. As eleições presidenciais já começam a ocupar espaço no debate nacional, mas dificilmente despertam entusiasmo. A reeleição, a meu ver, foi um erro que ainda precisa ser corrigido. Ela faz com que governantes passem boa parte do mandato preocupados com a próxima campanha, quando deveriam estar concentrados em administrar o país.
Também me preocupa a possibilidade de o poder permanecer alternando entre os mesmos grupos políticos. Em qualquer democracia saudável, a renovação é importante. Novas lideranças, novas ideias e novos projetos fortalecem as instituições e ampliam as alternativas colocadas diante do eleitor.
No meio de tudo isso, a pergunta continua sem resposta: quem realmente está pensando no Brasil? Quem está preocupado, antes de tudo, com crescimento econômico, educação, segurança, saúde e geração de empregos? Muitas vezes parece que a disputa pelo poder se tornou mais importante do que os problemas reais da população.
Talvez a maior riqueza de um país seja a confiança. Confiança nas leis, nas instituições, na economia e no futuro. Quando ela diminui, cresce o receio de investir, empreender, consumir e até de fazer planos de longo prazo.
É evidente que o Brasil possui enormes qualidades. Somos um povo trabalhador, criativo e capaz de superar dificuldades como poucos. Temos riquezas naturais, um agronegócio admirável, uma indústria relevante e profissionais altamente qualificados. Potencial não nos falta.
O que falta, talvez, seja transformar esse potencial em resultados permanentes. Há décadas ouvimos que o Brasil é o país do futuro. A frase tornou-se tão repetida que quase perdeu a força. O problema é que esse futuro parece sempre adiado.
Continuo acreditando no Brasil. Mas acredito ainda mais na necessidade de fazermos perguntas, de analisarmos os fatos com espírito crítico e de desconfiarmos de promessas fáceis. Afinal, uma democracia madura também se constrói quando o cidadão deixa de aceitar discursos prontos e passa a exigir resultados concretos.
Espero, sinceramente, voltar a confiar plenamente. Porque nenhum país cresce sustentado apenas pela esperança. Ele cresce quando esperança e realidade finalmente caminham na mesma direção.
