Impulsionada pelo crédito caro e pela dificuldade de recomposição de caixa, a inadimplência de empresas em Mato Grosso do Sul chegou a 129.407 CNPJs em fevereiro, no maior nível já registrado pela Serasa Experian.
Em relação ao mesmo período do ano passado, o crescimento passa de 42%, acompanhando o cenário nacional. Em todo o país, 8,8 milhões de empresas estavam com restrições de crédito em fevereiro.
O aumento da inadimplência também se reflete no volume financeiro. Em um ano, o total das dívidas saltou de R$ 2,16 bilhões para R$ 3,28 bilhões em Mato Grosso do Sul — uma alta superior a R$ 1,1 bilhão.
Já a quantidade de débitos em atraso cresceu de 737.723 para 977.014 registros. Na média, cada empresa acumula oito pendências, índice acima do nacional, que é de sete dívidas por CNPJ.
Para a economista-chefe da Serasa, Camila Abdelmalack, não há sinais consistentes de melhora no curto prazo. Segundo ela, o ambiente de crédito segue restritivo, com juros elevados e maior rigor na concessão, o que dificulta a recomposição de caixa das empresas.
Dados da Datatech mostram que micro e pequenas empresas concentram 95,2% da inadimplência no país. Mais dependentes de crédito de curto prazo, elas são as mais afetadas pelo custo elevado do dinheiro e pela menor capacidade de negociação com instituições financeiras.
Cenário nacional pressiona
O quadro em Mato Grosso do Sul reflete uma tendência observada em todo o país. O total de empresas negativadas em fevereiro se aproxima do recorde histórico registrado no fim de 2025.
O setor de Serviços concentra a maior parte da inadimplência, com 55,4% dos casos, seguido por Comércio (32,6%), Indústria (8,1%) e setor Primário (0,9%).
A predominância dos Serviços está ligada ao peso do segmento na economia brasileira, responsável por cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) e pela maior parcela das empresas em atividade.
Em relação à origem das dívidas, os maiores volumes estão ligados a despesas operacionais e fornecedores (31,5%), além de compromissos com bancos e cartões de crédito (19,5%).
Juros altos travam recuperação
O avanço da inadimplência ocorre em um cenário de crédito caro no Brasil. A Taxa Selic está em 14,75% ao ano, o que eleva o custo dos empréstimos e dificulta o acesso a financiamento.
Além disso, o spread bancário elevado — diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada dos clientes — encarece ainda mais o crédito, especialmente para empresas de menor porte.
Especialistas apontam fatores estruturais como desequilíbrio das contas públicas, baixa poupança interna, insegurança jurídica e pouca concorrência no sistema financeiro como elementos que ajudam a manter os juros em patamares elevados.

