Um policial militar da reserva, alvo de investigação sobre contrabando em Mato Grosso do Sul, já havia sido identificado anteriormente pela Polícia Federal por envolvimento no transporte de mercadorias ilegais. Em 2024, ele foi flagrado ao menos duas vezes levando produtos em veículos com compartimentos ocultos, ao lado de um empresário ligado ao Camelódromo de Campo Grande.
Na quarta-feira (18), o militar aposentado — com mais de 30 anos de atuação na corporação — voltou a ser alvo de mandados de busca e apreensão durante a Operação Iscariotes. As investigações apontam a existência de uma organização criminosa especializada na importação fraudulenta de eletrônicos, que recrutava agentes de segurança para auxiliar na distribuição dos produtos.
Registros da investigação indicam que o policial atuava como motorista e segurança do empresário, responsável por adquirir mercadorias no Paraguai. Pelo serviço, ele receberia cerca de R$ 600 por viagem.
Flagrantes e apreensões
Em fevereiro de 2024, o militar foi abordado ao sair de Ponta Porã pela MS-164. Na ocasião, foram encontrados vinhos, mesa de som, tablet e 40 celulares escondidos em compartimentos ocultos no veículo.
Quatro meses depois, em junho, ele e o empresário voltaram a ser flagrados transportando celulares escondidos em uma caminhonete Hilux. A apreensão ultrapassou R$ 1 milhão em iPhones. Ambos foram presos em flagrante, mas liberados após audiência de custódia mediante pagamento de fiança — R$ 20 mil para o policial e R$ 10 mil para o empresário. O militar também teve a CNH suspensa por 180 dias.
Durante interrogatório, o policial admitiu já ter sido preso por descaminho em 2022, mas alegou desconhecer a existência dos compartimentos ocultos nos veículos.
Condenações e recursos
Após audiência realizada em junho de 2025, os dois foram condenados pela 2ª Vara Federal de Ponta Porã. O militar recebeu pena de 3 anos e 4 meses em regime semiaberto, enquanto o empresário foi condenado a 1 ano, 9 meses e 8 dias em regime aberto.
As defesas recorreram, e, em fevereiro deste ano, o tribunal decidiu pela substituição das penas privativas de liberdade por medidas restritivas de direitos. No caso do policial, foram impostas prestação de serviços à comunidade e pagamento de cinco salários mínimos a entidade beneficente. Já o empresário teve a pena reduzida para 1 ano, 5 meses e 20 dias, também convertida em serviços comunitários e pagamento de seis salários mínimos.
Denúncia por injúria racial
Além do caso de contrabando, o militar passou a responder por injúria racial. O episódio ocorreu em janeiro de 2023, no bairro Estrela Dalva, em Campo Grande, mas a denúncia foi apresentada pelo Ministério Público em fevereiro deste ano.
Segundo a acusação, o policial teria se irritado com o volume de som em uma residência vizinha, chutado o portão do imóvel e ofendido uma manicure com expressões racistas. A Justiça recebeu a denúncia no último dia 6, tornando o militar réu. O Ministério Público pede condenação e indenização mínima de R$ 5 mil à vítima.
Operação e esquema
A Operação Iscariotes cumpriu mandados em Campo Grande e Dourados, além de cidades em Minas Gerais, como Belo Horizonte, Vespasiano e Montes Claros, destinos finais dos produtos contrabandeados.
A investigação aponta que a organização criminosa importava eletrônicos de alto valor sem documentação fiscal e sem controle aduaneiro. Os produtos eram ocultados em cargas legais e transportados em veículos adaptados, sendo distribuídos para diversas regiões do país.
Durante a ação, quatro lojas de uma mesma família foram interditadas no Camelódromo de Campo Grande.
Posicionamento da PM
A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul informou que colabora com as investigações por meio de sua Corregedoria-Geral, que acompanha o caso e instaurou procedimentos administrativos disciplinares. A corporação destacou que não tolera desvios de conduta e reafirmou compromisso com a legalidade e a ética no exercício da atividade policial.

