Suspeita de desvio de mais de 500 quilos que deveriam ser incinerados põe em xeque a fiscalização de drogas apreendidas. Ex-chefe da delegacia de fronteira está entre os nove policiais investigados.
Mais de meia tonelada de cocaína apreendida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deveria ter sido destruída em setembro de 2025. A suspeita é de que a carga tenha voltado às mãos de traficantes. O episódio está no centro da Operação Infiltrados II e levanta uma dúvida sobre a guarda de entorpecentes no Estado: em que momento a droga teria saído do controle da polícia e quem teria condições de perceber a falta?
A operação, deflagrada na quinta-feira (5), investiga nove policiais civis que trabalharam na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron). Entre eles está o delegado Guilherme Scucuglia Cezar, ex-chefe da unidade, alvo de mandado de busca e apreensão. As suspeitas abrangem o período de junho de 2025 a maio de 2026.
Também são investigados Rogério da Rocha Ferreira, Rodrigo Carpes da Silva, Anderson Mirandola, Cassiano Rodrigues Teixeira, Eumer Cordeiro Barbosa, Oseias Medeiros da Silva, Gustavo dos Santos Sayao e João Marcos Garcia. A participação atribuída a cada um ainda não foi detalhada.
Da apreensão à incineração
A investigação examina três momentos em que a cocaína poderia ter sido retirada: durante a apreensão, quando a droga já estava no depósito da delegacia ou no transporte para a incineração. A suspeita é de que traficantes recebessem o entorpecente e o colocassem novamente à venda.
No episódio de setembro, o volume que teria sido desviado, por si só, dá dimensão ao problema de fiscalização. Para esclarecer o que aconteceu com os mais de 500 quilos, é preciso reconstituir o percurso da carga: quanto foi apreendido, quanto entrou no depósito e quanto chegou ao local da queima. Permanece em aberto em qual dessas etapas a diferença surgiu e quando foi percebida.
Corregedoria já investigava a unidade
Quando a operação foi às ruas, a Corregedoria da Polícia Civil já apurava as suspeitas havia cerca de quatro meses, por meio de um inquérito e de um processo administrativo disciplinar. Nesse período, houve remoções de servidores, mudanças de procedimentos e uma fiscalização extraordinária na Defron. Os resultados dessa inspeção ainda não foram divulgados.
A nova fase teve quatro mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão em Dourados, Ponta Porã e Nova Andradina, em Mato Grosso do Sul, e em Santa Terezinha de Itaipu, no Paraná. A apuração sobre a conduta dos nove policiais corre em paralelo à investigação interna. Além de esclarecer responsabilidades individuais, o caso exige uma resposta da corporação sobre como era feita a conferência das cargas e o que mudou desde que as suspeitas vieram à tona.
