
Fotos reunidas pela PF mostram encontros de Hoffman D’Ávila com Adel Haidar e a presença do filho do investigado na delegacia de narcóticos. Operação apura o desvio de duas toneladas de cocaína apreendida.
Na noite de 16 de dezembro de 2025, Adule Vasques Haidar posou para uma foto dentro da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), em Campo Grande. Com o brasão da Polícia Civil ao lado, apontou para a porta com a inscrição “ARQUIVO INVESTIGAÇÃO”. O registro passou a integrar o mesmo inquérito em que seu pai, Adel Hassan Haidar, aparece cantando em um karaokê com o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da unidade.

As fotografias, divulgadas pelo g1 MS, ajudam a Polícia Federal a reconstituir o contato de policiais civis de Mato Grosso do Sul com integrantes de uma família investigada por tráfico internacional de drogas e armas. Uma das questões centrais da Operação Ifrit é como membros do grupo teriam conseguido entrar em instalações da polícia e retirar cocaína que estava sob a guarda do Estado.
Segundo a PF, o esquema movimentou mais de R$ 500 milhões em dois anos. A investigação aponta três irmãos da família Haidar e seus filhos como responsáveis por uma rede que atuava a partir da fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Adel é apontado como um dos líderes e financiadores do grupo. Ao filho Adule, os investigadores atribuem o controle da contabilidade, da logística e dos pagamentos de propina.
Do karaokê ao encontro monitorado por drone
Na fotografia do karaokê, Hoffman aparece sentado à mesa com Adel. Para os investigadores, a cena é um dos indícios de que o delegado e o empresário mantinham convivência social. Em outro registro anexado ao inquérito, Adel segura uma arma longa durante um teste de pontaria, com Hoffman ao lado.
A PF também acompanhou um encontro entre os dois em uma residência. Com auxílio de um drone, os agentes registraram o momento em que Adel e Hoffman se abraçaram na despedida. Em seguida, o delegado entrou em um carro e seguiu para a sede do Garras, unidade que chefiava à época. Conforme o relatório, a placa do veículo não constava nos cadastros consultados pelos policiais federais.
Fotos mostram visita noturna à Denar e viatura do Garras
Na noite em que posou diante do arquivo de investigações, Adule estava acompanhado de Vitor da Silva, apontado pela PF como integrante da estrutura operacional do grupo. Em outra fotografia feita naquela ocasião, os dois aparecem com o símbolo da Denar ao fundo.
Fora da delegacia, o próprio Adule registrou outro contato investigado pela PF. De dentro do carro, ele fotografou uma viatura oficial do Garras emparelhada com seu veículo em uma via pública. Segundo os investigadores federais, os policiais civis Andrey Elesbão Silva e Douglas Tobias ocupavam a viatura.
A suspeita é de que os dois prestassem serviços distintos ao grupo. Andrey teria consultado sistemas policiais de acesso restrito para obter dados de veículos, placas e pessoas de interesse da organização. Em troca, segundo a PF, receberia dinheiro e equipamentos táticos. Douglas é investigado por supostamente ajudar a proteger carregamentos. O nome dele, conforme a apuração, aparecia nos registros de pagamento de propinas mantidos pelo grupo.
Como a cocaína teria saído do depósito da polícia
A investigação atribui a Hoffman a suspeita de viabilizar o desvio de duas toneladas de cocaína. Segundo a PF, o delegado teria facilitado a entrada de integrantes do grupo tanto na Denar quanto no depósito que recebia entorpecentes apreendidos pelas polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal.
O grupo teria retirado do estoque a cocaína de maior pureza para revendê-la. No lugar, deixava volumes com identificação semelhante à das embalagens originais. A diferença estava no conteúdo. Segundo a PF, a mistura usada na substituição levava amido de milho, fermento e aglutinantes, com concentração de cocaína em torno de 10% ou menos.
Uma falha no controle do estoque teria permitido que a troca passasse despercebida. Os exames preliminares identificavam a presença de cocaína, mas a fiscalização não acompanhava com precisão o grau de pureza do material armazenado. A PF afirma que os investigados chegaram a testar a mistura para verificar se ela reagia de maneira semelhante à droga original. Depois da substituição, o próprio delegado teria encaminhado os lotes adulterados para destruição.
Além das fotografias, os investigadores reuniram conversas e vídeos que, segundo a PF, registram a manipulação da droga e a entrada de suspeitos nas dependências policiais.
Da fronteira de MS aos portos com destino à Europa
Conforme a investigação, a rede obtinha drogas na Bolívia, no Peru e no Paraguai. Parte das cargas abastecia cidades do Sul e do Sudeste do Brasil. Outra parte seguia para portos, com destino principalmente à Espanha e a Portugal. A PF apura vínculos da organização com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
A suspeita de colaboração de agentes públicos também alcança policiais militares de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Segundo a PF, integrantes das corporações teriam recebido dinheiro ou bens em troca de informações sigilosas usadas para monitorar rivais, veículos e locais de interesse do grupo.
Deflagrada na quarta-feira (4) pela Polícia Federal e pela Receita Federal, a Operação Ifrit teve 29 investigados como alvos. A Justiça expediu 25 mandados de prisão preventiva e um de prisão temporária, além de determinar o monitoramento eletrônico de três pessoas. Três policiais civis de Mato Grosso do Sul foram alvo de ordens de afastamento.
Mais de 450 agentes foram mobilizados para a operação, que incluiu 76 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás e Rondônia.
O que dizem as defesas
Hoffman e Douglas já haviam sido presos em setembro. A defesa do delegado informou que, ao tomar conhecimento do novo mandado de prisão preventiva, ainda aguardava acesso integral ao inquérito, à decisão judicial e às provas que fundamentaram a medida. Os advogados disseram que vão se manifestar sobre as acusações após a análise dos autos.
O advogado Luiz Renê, que representa Douglas Tobias, afirmou que acompanhou o cumprimento do mandado de busca e apreensão e que também aguardava acesso à decisão e ao conteúdo do inquérito. A defesa declarou que o policial está à disposição para prestar esclarecimentos.
