Santiago Peña é acusado de conflito de interesses por vínculos com o grupo controlador do banco, que administra cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. O vice-presidente Pedro Alliana também é alvo de um pedido de impeachment.
A crise do banco digital Ueno chegou à Presidência do Paraguai. Um grupo de 35 deputados da oposição e da ala dissidente do Partido Colorado, sigla do presidente Santiago Peña, protocolou na quarta-feira (4) um pedido de impeachment contra o chefe de Estado. Os parlamentares questionam por que recursos da Previdência paraguaia ficaram concentrados em um banco ligado a antigos sócios do presidente e por que Peña escolheu um ex-dirigente da instituição para comandar o Banco Central. H. Cámara de Diputados del Paraguay
O presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre, convocou uma sessão extraordinária para as 10h desta quinta-feira (5), no horário de Assunção, para analisar a acusação contra Peña. Um segundo pedido, dirigido ao vice-presidente Pedro Alliana, recebeu 30 assinaturas. Parte dos dissidentes governistas apoiou a iniciativa contra o presidente, mas deixou de assinar a acusação contra o vice. ultimahora.com
O que os deputados atribuem a Peña
Peña foi sócio do grupo controlador do Ueno até março de 2025. Segundo os autores do pedido, o vínculo empresarial criou um conflito de interesses em decisões do governo. Um dos pontos centrais é a aplicação de dinheiro do Instituto de Previdência Social (IPS) no banco. Os deputados sustentam que os depósitos ultrapassaram os limites previstos nas normas paraguaias. Também acusam o presidente de ter impulsionado mudanças na legislação que trata de conflitos de interesses. H. Cámara de Diputados del Paraguay
Outro ponto é a escolha de Carlos Carvallo para presidir o Banco Central. Antes de assumir a autoridade responsável por fiscalizar o sistema financeiro, Carvallo havia comandado a Financeira Ueno. A supervisão do banco já vinha sendo contestada no Congresso, onde parlamentares consideraram incompleto um relatório sobre a instituição. Na terça-feira (3), a pedido de Peña, Carvallo anunciou a renúncia. Disse, porém, que permaneceria no cargo durante o procedimento aberto para lidar com a crise.
No caso de Alliana, os deputados afirmam que o vice atuou no Congresso para proteger os interesses da instituição e avalizou a aplicação de recursos previdenciários. Também atribuem a ele omissão diante de alertas sobre a concessão de crédito a empresas vinculadas ao grupo. H. Cámara de Diputados del Paraguay
Crise atingiu 3 milhões de clientes
Maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, o Ueno reúne cerca de 3 milhões de clientes. A intervenção do Banco Central ocorreu depois que uma revisão dos balanços mostrou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido. O indicador mede se o banco tem capital suficiente para absorver perdas e cumprir suas obrigações. reuters.com
A crise teve efeito imediato para quem dependia da conta bancária. Na terça-feira, clientes encontraram agências fechadas. Entre eles estavam aposentados que recebem benefícios públicos pelo Ueno. Em Ñemby, nos arredores de Assunção, o correntista Manuel Cáceres relatou à Reuters que passou a manhã tentando ter acesso ao próprio dinheiro.
O banco administra aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores do IPS e de outros fundos de previdência. Peña defendeu o uso do Fundo de Garantia de Depósitos para pagar os correntistas e afirmou que o governo buscaria recuperar também o dinheiro dos órgãos públicos. O Banco Central já anunciou um adiantamento da garantia aos depositantes. ultimahora.com
Investigação criminal alcança direção do banco
Antes da intervenção, os reguladores já apuravam se o Ueno havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, seu controlador. O banco negava ter financiado a operação.
A investigação criminal também avançou. A Justiça paraguaia aceitou a acusação inicial do Ministério Público contra Miguel Vázquez, principal executivo do Ueno, e outras 26 pessoas. Em paralelo, o Banco Central anunciou que a Superintendência de Bancos nomearia auditores para verificar a situação dos ativos da instituição. ultimahora.com
Peña declarou que a crise está restrita ao Ueno e defendeu que os responsáveis respondam perante a Justiça. Quanto ao futuro do presidente, a decisão cabe ao Congresso. Pela Constituição paraguaia, a acusação precisa passar pela Câmara por maioria de dois terços para seguir ao Senado. Os senadores conduzem o julgamento, e uma eventual destituição também exige maioria de dois terços.
