PF aponta que parentes comandavam o grupo na fronteira com o Paraguai. Em Campo Grande, o delegado Hoffman D’Ávila é suspeito de facilitar o desvio de duas toneladas de cocaína apreendida.
Uma investigação da Polícia Federal apura como um grupo que atuava na fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero, no Paraguai, teria conseguido acesso ao depósito de drogas da Polícia Civil em Campo Grande. Entre os 29 alvos da Operação Ifrit, deflagrada na quarta-feira (4) em sete estados, estão integrantes da família Haidar e o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, preso desde setembro.
Segundo a PF, três irmãos da família Haidar, filhos e outros parentes formavam o núcleo de comando da organização. O grupo teria ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC). A investigação identificou rotas que partiam da Bolívia, do Peru e do Paraguai e abasteciam cidades brasileiras e países europeus, principalmente Espanha e Portugal.
Em dois anos, a PF identificou mais de R$ 500 milhões em movimentações financeiras atribuídas ao grupo. As medidas judiciais atingiram um haras, seis fazendas que somam mais de 5 mil hectares, mansões, veículos de luxo, lanchas e cavalos de raça.
Como a cocaína teria saído da delegacia
Na capital, a investigação se concentra na Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar). Segundo a PF, Hoffman teria facilitado a entrada de integrantes do grupo no depósito onde ficavam drogas apreendidas por diferentes forças de segurança. A suspeita é de que cerca de duas toneladas de cocaína tenham sido retiradas do local.
Para encobrir o desvio, o grupo teria copiado as marcas das embalagens originais e colocado no lugar da droga uma mistura com amido de milho, fermento e cerca de 10% ou menos de cocaína. A troca explorava uma falha no controle do estoque. Os testes preliminares detectavam a presença da substância, mas o grau de pureza do material armazenado não era acompanhado com rigor.
A PF afirma ter encontrado conversas, vídeos e fotos de investigados manuseando a droga e entrando na Denar. Segundo a apuração, o próprio delegado encaminhava o material adulterado para destruição. Os investigadores estimam que Hoffman tenha recebido ao menos R$ 15 milhões em cerca de dois anos com a venda da cocaína desviada, a preços que variavam de R$ 8,5 mil a R$ 10,5 mil por quilo.
Operação alcançou sete estados
Além de Mato Grosso do Sul, a operação teve diligências em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. A ação reuniu 25 mandados de prisão preventiva, um de prisão temporária e 76 de busca e apreensão. A Justiça também determinou o monitoramento eletrônico de três pessoas e o afastamento de três policiais civis de MS.
A PF apura a participação de policiais civis e militares sul-mato-grossenses e de um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Parte dos agentes é suspeita de receber dinheiro ou bens para repassar informações sigilosas que permitiam ao grupo acompanhar os deslocamentos de rivais.
Quem são os 29 alvos da Operação Ifrit
Os nomes foram divulgados pelo g1 MS.
| Adel Hassan Haidar | Eduardo Greco | Nasser Haidar | Adule Vasques Haidar | Fahd Haidar | Pedro Henrique Flores Camargo | Andrey Elesbão Silva | Hector Salinas Esquivel | Rafael Rodas Neto | Bassam Hassan Haidar Ahmed | Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa | Renan Braiana Garcia Presotto | Brendo Benega Pereira | Ireneo Ramom Acosta | Salazar José Batista | Bruno Banega | João Fernando Andrade de Carvalho | Valdeson Pereira dos Santos | Bruno Leonardo Bergamasco | Jorge Adalid Granier Ruiz | Valter Ulisses Martins Silva | Daniel Ecleverson da Silva Barbosa | José Miguel Vela Caprioli Junior | Victor Hugo Santos Queiroz | Daniel Jonatas Ferreira | Mamede Alhaj Haidar | Vitor da Silva | Douglas Tobias | Maroan Fernandes Haidar Ahmed |
O que dizem as defesas
Hoffman, que já estava preso em decorrência da Operação Infiltrados, foi alvo de um novo mandado de prisão preventiva. Em nota ao g1 MS, a defesa informou que aguardava acesso integral ao inquérito e à decisão judicial para se manifestar sobre as suspeitas.
A defesa do policial civil Douglas Tobias, também preso em setembro, informou que acompanhou a busca, mas ainda aguardava acesso à decisão e ao inquérito. Segundo o advogado Luiz Renê, Tobias está à disposição para prestar esclarecimentos.
O g1 MS informou que, até a publicação da reportagem, não havia conseguido contato com as defesas dos demais investigados nem recebido resposta da Polícia Civil e da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública.
