O julgamento do ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido como “Pablo Escobar brasileiro”, foi retomado na terça-feira (8) na Bélgica. Apontado como um dos principais nomes do tráfico internacional de drogas, ele divide o banco dos réus com outros 30 acusados.
O processo, iniciado em 15 de setembro de 2025, aproxima-se de um ano de tramitação e já passou por uma série de interrupções provocadas principalmente por embates entre advogados de defesa e integrantes do Judiciário belga.
A nova etapa começou com uma mudança importante: três novos juízes assumiram a condução do caso depois que o Tribunal de Apelação de Ghen decidiu que os magistrados que participavam anteriormente do julgamento não poderiam permanecer à frente do processo.
Na manhã da retomada, as discussões ficaram concentradas em questões processuais levantadas pelas defesas. O advogado de Flor Bressers, outro acusado apontado como figura central do esquema, contestou conclusões e documentos apresentados pelo Ministério Público.
Os defensores também questionaram as condições em que os réus permanecem durante as sessões, em uma estrutura semelhante a uma cabine de vidro instalada no tribunal. A previsão era de que, no período da tarde, os promotores apresentassem suas alegações.
Carvalho está preso desde 2023, quando foi localizado na Hungria usando um passaporte mexicano falso. Ele era procurado por autoridades brasileiras e europeias e, posteriormente, acabou transferido para a Bélgica, onde permanece detido.
As investigações apontam que Carvalho e o belga Flor Bressers estariam entre os líderes de uma organização criminosa especializada em transportar cocaína a partir de portos brasileiros com destino à Europa. Antuérpia, na Bélgica, e Roterdã, na Holanda, aparecem entre os principais pontos de entrada das cargas.
O esquema é acusado de movimentar pelo menos 45 toneladas de drogas e de gerar aproximadamente € 500 milhões em receitas, montante equivalente a cerca de R$ 2,9 bilhões.
Julgamento marcado por conflitos
Desde o início, o processo tem sido marcado por sucessivas disputas entre defesa e magistrados. Logo nas primeiras sessões, em setembro de 2025, a defesa de Flor Bressers questionou uma das provas apresentadas e conseguiu a suspensão temporária da audiência.
Dias depois, novos conflitos ocorreram. Advogados chegaram a deixar coletivamente o tribunal após um dos defensores ser impedido de falar. O presidente da Ordem dos Advogados precisou ser chamado para tentar intermediar a situação.
Em outro episódio, o advogado criminalista Louis De Groote insistiu em se manifestar depois de ter a palavra negada. O então juiz Frederik Gheeraert determinou que policiais o retirassem do tribunal. Segundo relatos da imprensa belga, o defensor foi retirado à força.
Outro advogado tentou intervir e também acabou retirado. A sequência de acontecimentos levou à apresentação de sete pedidos para afastar magistrados do caso.
Um dos primeiros questionamentos teria partido da defesa de Sérgio Roberto de Carvalho, que pediu a retirada de Gheeraert do julgamento. Advogados alegaram que os episódios comprometiam o direito dos acusados a um julgamento justo.
O processo ainda sofreu paralisações em novembro de 2025 e nos meses de janeiro, março e abril deste ano. A substituição dos magistrados abriu caminho para a retomada das audiências nesta semana.
De policial a alvo internacional
Sérgio Roberto de Carvalho ingressou na Polícia Militar de Mato Grosso do Sul no fim da década de 1980 e chegou a comandar o batalhão de Amambai, município localizado na região de fronteira com o Paraguai.
Na década de 1990, começou a ser relacionado a atividades ilegais, inicialmente envolvendo contrabando de pneus e bebidas. Em 1997, investigações já apontavam sua participação no transporte de cocaína da Colômbia e da Bolívia para o interior de São Paulo.
No mesmo ano, ele foi transferido para a reserva remunerada da PM. Em 1998, recebeu uma condenação de 15 anos de prisão pelo tráfico de 237 quilos de cocaína.
Após um longo processo administrativo, perdeu posto e patente, e a aposentadoria chegou a ser suspensa em 2010. Em 2016, entretanto, obteve decisão judicial que restabeleceu o pagamento do benefício.
Também em 2016, Carvalho deixou Campo Grande e, segundo as investigações, passou a estruturar uma rede de logística para o envio de grandes carregamentos de cocaína à Europa.
Dois anos depois, passou a integrar a lista de procurados da Interpol e, em março de 2018, foi oficialmente expulso da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul.
Em 2019, recebeu nova condenação, desta vez a 15 anos e três meses de prisão, acusado de utilizar empresas de fachada e pessoas interpostas para movimentar aproximadamente R$ 60 milhões.
A Polícia Federal estima que, somente entre 2018 e 2020, o grupo ligado ao ex-major tenha movimentado cerca de R$ 2,25 bilhões e enviado aproximadamente 45 toneladas de cocaína para o mercado europeu. No Brasil, o Porto de Paranaguá, no Paraná, aparecia entre as principais rotas utilizadas para despachar os carregamentos ao exterior.
