Com cerca de 690 chamadas por perturbação do sossego registradas apenas em maio — média de 22 por dia — a Polícia Militar acendeu o alerta para o aumento de conflitos relacionados ao excesso de ruído em Campo Grande. Diante da alta demanda, a corporação estuda ampliar o uso de sonômetros e endurecer a fiscalização. Para especialistas, porém, o problema vai além do volume do som: o barulho muitas vezes funciona como gatilho para tensões acumuladas, sobrecarga emocional e baixa tolerância à frustração.
Segundo o coronel Emerson de Almeida Vicente, comandante do Policiamento Metropolitano da Polícia Militar, a corporação busca aperfeiçoar o atendimento desse tipo de ocorrência. Ele explica que nem toda denúncia de barulho se enquadra como perturbação do sossego. Em determinadas situações, quando há impacto à saúde pública, o caso pode ser tratado como crime ambiental.
A discussão ocorre no âmbito de uma comissão interna da PM e também em um grupo de trabalho com representantes de diferentes órgãos públicos. Entre as medidas em análise está o uso do sonômetro como instrumento complementar de prova durante fiscalizações. Caso a poluição sonora passe a ser enquadrada como crime ambiental em determinadas circunstâncias, os responsáveis poderão responder na esfera criminal e também sofrer sanções administrativas, como multas e até interdição temporária de estabelecimentos.
De acordo com o coronel, a intenção não é prejudicar comerciantes, mas reduzir os impactos do excesso de ruído e melhorar a qualidade de vida da população. As ocorrências se concentram principalmente entre quinta-feira e domingo, período de maior movimento em bares, conveniências e outros estabelecimentos comerciais da Capital.
Fiscalização reforçada
Paralelamente aos estudos, a Polícia Militar intensificou ações de orientação e fiscalização em estabelecimentos comerciais. Entre as irregularidades mais frequentes encontradas pelas equipes estão a ausência de alvará de funcionamento e o descumprimento dos horários autorizados.
Segundo a corporação, são recorrentes os casos de locais que deveriam encerrar as atividades à meia-noite, mas seguem abertos durante a madrugada em desacordo com as normas vigentes.
Na última sexta-feira (12), a PM realizou a Operação Saturação na região da Lagoa. Com caráter preventivo, a ação fiscalizou cerca de 10 estabelecimentos, entre bares, tabacarias, conveniências e comércios similares. Durante as visitas, as equipes verificaram documentação, orientaram proprietários e realizaram abordagens voltadas à manutenção da ordem pública e à prevenção de delitos.
Ruído como estopim para casos mais graves
As reclamações de perturbação do sossego não se restringem a festas, som alto ou algazarras. Ruídos provocados por motocicletas, escapamentos adulterados, buzinas e outras situações do cotidiano também estão entre os principais motivos de desentendimentos entre moradores e acionamentos da Polícia Militar.
Em alguns casos, o incômodo provocado pelo barulho acaba servindo de gatilho para conflitos mais graves. Um exemplo ocorreu no início deste mês, na Vila Sobrinho, quando um grupo de motoboys derrubou o portão de uma residência e danificou um veículo após discussão durante a entrega de um lanche. Conforme o boletim de ocorrência, o desentendimento começou depois que o entregador acionou repetidamente a buzina da motocicleta para chamar os moradores.
Casos extremos também têm chegado ao Judiciário. No mês passado, os primos Paulo Henrique Pereira da Cruz Nascimento e Victor Manoel da Silva dos Santos foram condenados a 14 anos de prisão, em regime fechado, pela morte de Claudionor Lopes dos Santos, de 67 anos. Em 2023, a vítima foi espancada com uma barra de ferro após uma discussão motivada por som alto no Jardim Aero Rancho.
Especialistas apontam estresse e perda de convivência
Para a psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental Mayara Crespo, episódios como esses mostram que o problema nem sempre está apenas no barulho. Segundo ela, situações aparentemente simples costumam funcionar como gatilho para emoções acumuladas ao longo do tempo.
“Muitas vezes, a buzina, o som alto ou um desentendimento com o vizinho são apenas a última gota que faz o copo transbordar. O problema não é apenas o barulho, mas o acúmulo de estresse, sobrecarga emocional e dificuldades de comunicação que as pessoas carregam no dia a dia”, afirma.
A especialista avalia que a rotina marcada por excesso de estímulos, cobranças constantes e pouco tempo para descanso tem reduzido a tolerância das pessoas às frustrações. Com isso, situações corriqueiras acabam sendo interpretadas como ataques pessoais, dificultando o diálogo e aumentando o risco de reações impulsivas.
Na mesma linha, a psicóloga Laiza Somell, que atua com abordagem humanista e Gestalt-terapia, aponta que o aumento dos conflitos também está relacionado às mudanças nas formas de convivência e ao enfraquecimento dos laços comunitários. Segundo ela, o avanço das redes sociais e a redução do convívio entre vizinhos contribuíram para a perda de habilidades de comunicação, empatia e sociabilidade.
“As pessoas vivem cada vez mais inseridas nas redes sociais e menos nas relações presenciais. Isso afeta a capacidade de interação, de empatia e até de lidar com as próprias emoções. Há uma dificuldade maior em tolerar frustrações e compreender o outro”, diz.
Laiza também destaca que questões ligadas à segurança pública alteraram a dinâmica dos bairros ao longo dos anos. Se antes a vizinhança era vista como uma extensão do ambiente familiar, hoje muitas pessoas permanecem mais tempo dentro de casa e mantêm pouco contato com quem mora ao redor.
Mais de 24 mil registros em um ano
Dados do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops), vinculado à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), mostram que a Polícia Militar atendeu 24.328 ocorrências de perturbação do sossego em 2025 em Campo Grande.
Os bairros com maior número de registros foram Nova Lima, com 1.087 ocorrências, seguido por Caiobá (982), Aero Rancho (940), Centro (887), Jardim Noroeste (822), Moreninhas (638), Guanandi (558), Centro-Oeste (539), Los Angeles (537) e São Conrado (519).
