
Há trajetórias que impressionam pelos cargos alcançados. Outras, pelos valores que as sustentam. A vida do desembargador Julizar Barbosa Trindade reúne as duas virtudes. Ao longo dos anos, sempre vi nele um homem de origem simples, trabalhador incansável, honesto por convicção e corajoso diante dos desafios da vida.
Sua história começou longe dos privilégios. Filho de uma família humilde, entre 14 irmãos, conheceu desde cedo o valor do esforço e do sacrifício. Trabalhou ainda criança, estudou enfrentando dificuldades e construiu seu caminho passo a passo. Foi bancário, advogado e, como tantos brasileiros que acreditam no poder dos sonhos, alimentou o desejo de ingressar na magistratura.
Não foi aprovado na primeira tentativa. Poderia ter desistido. Não desistiu. Persistiu com a firmeza de quem acredita no próprio destino e, em 18 de março de 1981, realizou o sonho de vestir a toga. Ali começava uma jornada que marcaria profundamente o Poder Judiciário sul-mato-grossense.
Foram mais de quatro décadas dedicadas à magistratura. De Corumbá a Glória de Dourados, de Amambai a Ponta Porã, até chegar a Campo Grande e ao Tribunal de Justiça, sua caminhada foi construída com trabalho, estudo, equilíbrio e compromisso. Ascendeu aos mais altos degraus da carreira sem jamais se afastar das qualidades que o acompanharam desde a juventude: a simplicidade, a humildade e o respeito pelas pessoas.
Quando tomou posse como desembargador, uma palavra ganhou destaque especial em seu discurso: honestidade. Não foi um acaso. Era a síntese de sua visão de mundo e de Justiça. Julizar afirmava não conceber uma instituição encarregada de julgar a vida dos outros que não estivesse absolutamente comprometida com esse princípio. E prometeu exercer sua missão com seriedade e destemor.
Cumpriu a promessa.
Quem teve a oportunidade de conhecê-lo sabe que sua firmeza jamais se confundiu com arrogância. Exercia a autoridade sem necessidade de imposição. Dominava a técnica sem perder a sensibilidade humana. Era respeitado não apenas pelo cargo que ocupava, mas pela maneira como se comportava dentro e fora dele. Construiu uma carreira vitoriosa sem atropelar ninguém, sem cultivar vaidades e sem abrir mão de seus princípios. Talvez por isso tenha conquistado admiração genuína de advogados, magistrados, servidores e de todos aqueles que cruzaram seu caminho.
Na despedida da magistratura, em 2023, recebeu homenagens que refletiam exatamente aquilo que representou ao longo de sua vida pública. Foi lembrado como um magistrado digno, técnico, sereno e equilibrado, alguém capaz de unir, em suas decisões, o rigor do Direito e o sentimento de justiça. Destacaram-se suas virtudes, seu caráter e o legado construído após décadas de dedicação ao Judiciário.
Mas nenhuma história é construída sozinha.
A família ocupa lugar central em sua trajetória. No discurso de posse, emocionou-se ao agradecer aos pais, à esposa Dalva e aos filhos. Naquele momento tão importante, fez questão de reconhecer aqueles que estiveram ao seu lado nos dias difíceis, quando o futuro ainda era apenas um sonho. O magistrado que chegava ao Tribunal não esquecia o menino que começou a trabalhar cedo nem as pessoas que o ajudaram a chegar até ali.
Na aposentadoria, ouviu uma das mais belas definições que alguém pode receber ao encerrar uma vida pública: a de que deixava a toga tão pura quanto a havia vestido pela primeira vez. Poucos recebem elogio tão significativo. Menos ainda fazem por merecê-lo. Depois de mais de quarenta anos de magistratura, Julizar saiu pela mesma porta por onde entrou: honrado, respeitado e com a consciência tranquila de quem cumpriu integralmente sua missão.
Vejo nele, também, muitas das virtudes que caracterizam a magistratura sul-mato-grossense: o trabalho silencioso, a seriedade, a discrição e o respeito às instituições. Os cargos são passageiros. As homenagens se tornam lembranças. Mas os exemplos permanecem.
E Julizar Barbosa Trindade deixa exatamente isso: um exemplo.
Parabéns pela extraordinária trajetória, pela família que construiu, pelos valores que preservou e pelo legado que deixa às futuras gerações. Para nós, que temos a alegria de conhecê-lo, conviver com sua amizade e aprender com seu exemplo, fica o orgulho de ter testemunhado parte dessa história. A toga foi deixada para trás. Mas o respeito, a gratidão, a amizade e a admiração permanecerão para sempre.

