O relatório final da Operação Ultima Ratio destaca a relação entre o desembargador Vladimir Abreu da Silva, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, e o advogado Rodrigo Pimentel, filho do desembargador Soncini Pimentel. À época da operação, Soncini havia sido eleito presidente do TJMS, mas não chegou a assumir o cargo.
Segundo o delegado Marcos André Araújo Damato, há “provas robustas” que indicariam a prática de venda de decisões judiciais por parte de Vladimir Abreu da Silva. O fato de o magistrado ter julgado processos envolvendo o advogado com quem mantinha proximidade é apontado como um indicativo de quebra de imparcialidade.
A Polícia Federal considera relevante o vínculo entre os dois, destacando que a atuação do desembargador em causas do advogado, somada a outros elementos da investigação, configura “fortes indícios” de irregularidades.
Entre os pontos levantados está a participação do magistrado em um grupo de WhatsApp criado por Rodrigo Pimentel, voltado a atividades de lazer, que reunia integrantes em torno de um rancho de pesca compartilhado. Também foram localizadas imagens armazenadas em nuvem que mostram encontros entre ambos nessas ocasiões.
A investigação ainda identificou depósitos em dinheiro em espécie realizados entre dezembro de 2023 e outubro de 2024. Para a PF, há indícios de que os valores possam ter origem em práticas ilícitas relacionadas à comercialização de decisões judiciais.
Em manifestação no inquérito que tramita no Superior Tribunal de Justiça, a defesa do desembargador negou irregularidades e afirmou que não há provas concretas contra ele. Os advogados sustentam que não houve qualquer ato de improbidade ou recebimento de vantagem indevida, além de negarem contato relacionado aos processos investigados.
Sobre os depósitos, a defesa argumenta que se tratam de valores de pequena monta, como R$ 1.750, R$ 1.200 e quantias menores, destinados à esposa do magistrado, proprietária de uma empresa de artigos decorativos. Segundo a versão apresentada, Vladimir apenas auxiliava na logística dos depósitos provenientes das vendas do negócio.
A Polícia Federal, no entanto, classificou a justificativa como “inverossímil”, apontando ausência de lógica na alegação de que um desembargador administraria valores em espécie de uma empresa familiar. Para os investigadores, o uso frequente de dinheiro em espécie, aliado aos demais elementos reunidos, reforça a suspeita de origem ilícita dos recursos.
O magistrado foi intimado a prestar depoimento, mas informou que não participaria da oitiva neste momento. A defesa argumenta que é necessário o acesso integral ao conjunto de provas reunidas, incluindo o conteúdo de mídias apreendidas, antes de qualquer manifestação.
