
O Supremo Tribunal Federal tem 135 anos de história republicana. Acompanho sua atuação desde 1988, quando iniciei a faculdade de Direito. Depois fiz mestrado em Direito Constitucional na PUC-SP e lecionei a disciplina durante 20 anos. Nunca vi o Supremo atravessar um momento como o atual.
É muito triste ver a Suprema Corte do país envolvida em tantas controvérsias e suspeitas. O STF deveria transmitir segurança, equilíbrio e confiança. Quando dúvidas graves alcançam seus próprios integrantes, o prejuízo institucional é enorme.
É claro que suspeita não significa culpa. Todos têm direito à defesa e ao devido processo legal. Mas surpreende que, diante de acusações relevantes, ministros permaneçam em silêncio ou ofereçam poucos esclarecimentos à sociedade. Quem exerce tamanho poder também deve satisfação institucional ao país.
A isso se soma o excessivo protagonismo político assumido pelo STF nos últimos anos. A Corte passou a ocupar espaços cada vez maiores na vida nacional. Quanto maior o poder, maior deve ser a preocupação com autocontenção, imparcialidade e respeito aos limites constitucionais.
Há poucos dias, uma cena me chamou a atenção. Existe uma obra ao lado do meu escritório e ouvi trabalhadores fazendo críticas duríssimas ao Supremo e ao Judiciário como um todo. Percebi naquele momento que o desgaste deixou os ambientes jurídicos e políticos. Chegou às ruas.
E existe uma grande injustiça nisso tudo: o STF não é todo o Judiciário brasileiro. São milhares de juízes, desembargadores e ministros trabalhando diariamente, muitas vezes em silêncio, julgando um enorme número de processos e cumprindo dignamente suas funções.
Em décadas de advocacia, conheci muitos magistrados. A enorme maioria trabalha seriamente, estuda os processos, respeita as partes e procura aplicar corretamente a lei. Eles não podem pagar por fatos dos quais não participaram.
Infelizmente, quando a imagem do Supremo se deteriora, parte desse desgaste alcança toda a Justiça. Uma crise no topo acaba prejudicando a confiança em uma estrutura formada, em sua imensa maioria, por profissionais sérios e dedicados.
Por isso, os fatos atuais precisam ser esclarecidos rapidamente. Nem condenação antecipada, nem proteção corporativa. Investigação séria, transparência, direito de defesa e, se comprovada alguma irregularidade, responsabilização.
Em quase quatro décadas acompanhando o Supremo, não me recordo de tamanho desgaste. Digo isso com profunda tristeza. Quem respeita o Judiciário deve ser justamente um dos primeiros a desejar que qualquer dúvida sobre seus integrantes seja completamente esclarecida.
Torço por uma solução rápida e transparente. O Brasil precisa de um Supremo respeitado e de um Judiciário preservado. E os milhares de magistrados que trabalham corretamente todos os dias não merecem carregar o peso de suspeitas e erros que não são seus.
