Propriedade de 5,9 mil hectares em Corumbá foi devolvida após disputa judicial investigada pela Polícia Federal; caso marca os dois anos da Operação Ultima Ratio.
Uma fazenda avaliada em R$ 24 milhões, localizada no Pantanal de Corumbá, voltou às mãos do pecuarista Ricardo Pereira Cavassa após decisão da 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A propriedade de 5,9 mil hectares, conhecida como Fazenda Vai Quem Quer, é um dos imóveis envolvidos nas investigações da Operação Ultima Ratio, que apura suspeitas de comercialização de decisões judiciais no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).
A restituição foi formalizada em 21 de junho de 2026, conforme comunicação apresentada à Justiça pelo advogado Fábio Theodoro de Faria. O imóvel estava sob disputa desde uma negociação realizada em 2020.
O caso ganha destaque neste sábado (24), quando a Operação Ultima Ratio completa dois anos. Deflagrada pela Polícia Federal em 24 de outubro de 2024, a investigação atingiu desembargadores, magistrados aposentados e integrantes do Tribunal de Contas do Estado.
O conflito começou em janeiro de 2020, quando Cavassa concordou em trocar a fazenda de Corumbá por quatro propriedades rurais localizadas em Iguape, no interior de São Paulo.
Entretanto, os imóveis oferecidos apresentavam restrições judiciais e ambientais que inviabilizaram a transferência, conforme os elementos apresentados no processo.
O pecuarista acionou a Justiça e conseguiu, em julho de 2022, decisão favorável à rescisão do contrato, com determinação de desocupação da fazenda.
O casal Lydio de Sousa Rodrigues e Neiva Rodrigues Torres recorreu ao TJMS. O processo foi distribuído à 4ª Câmara Cível, sob relatoria do desembargador Alexandre Bastos.
Durante a tramitação, Cavassa denunciou supostos danos à propriedade, incluindo retirada de madeira e incêndios.
Venda por R$ 7,8 milhões levantou suspeitas
Antes da conclusão do julgamento, Lydio e Neiva negociaram a propriedade por R$ 7,8 milhões, apesar de sua avaliação em R$ 24 milhões.
Segundo a Polícia Federal, o contrato mencionava apenas 1,9 mil hectares e previa o pagamento de R$ 1 milhão aos advogados envolvidos, condicionado ao resultado da disputa judicial.
A cláusula chamou a atenção dos investigadores, especialmente porque os profissionais receberiam recursos provenientes da venda de um imóvel cuja titularidade permanecia em litígio.
O recurso acabou sendo julgado favoravelmente ao casal no TJMS, revertendo a decisão de primeira instância.
A Polícia Federal identificou ainda, no telefone celular do desembargador Sideni Soncini Pimentel, conversas e documentos relacionados ao caso, considerados relevantes para a investigação de possível interferência irregular no julgamento.STJ reverte julgamento e fazenda é devolvida
A disputa chegou ao STJ, que afastou a decisão do tribunal estadual e determinou o desfazimento do negócio.
Com isso, Cavassa recuperou a posse da Fazenda Vai Quem Quer.
A devolução também atende a uma condição estabelecida pelo Ministério Público Estadual para a proposta de suspensão condicional do processo por estelionato contra Lydio e Neiva.
O juiz Roberto Ferreira Filho, da 1ª Vara Criminal de Campo Grande, marcou audiência para 12 de novembro de 2026, às 14h30, quando a proposta deverá ser analisada.
A restituição do imóvel não significa absolvição dos acusados nem encerra automaticamente a apuração criminal.
Operação Ultima Ratio completa dois anos
A Operação Ultima Ratio foi deflagrada em outubro de 2024 para investigar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo integrantes do Judiciário de Mato Grosso do Sul.
Na ocasião, cinco desembargadores foram afastados: Alexandre Bastos, Marcos José de Brito Rodrigues, Sérgio Fernandes Martins, Sideni Soncini Pimentel e Vladimir Abreu da Silva.
Também foi afastado o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Osmar Domingues Jeronymo.
As buscas alcançaram outros magistrados, incluindo desembargadores aposentados. Em um dos endereços ligados ao desembargador aposentado Júlio Roberto Siqueira Cardoso, foram encontrados R$ 2,7 milhões em dinheiro.
A Polícia Federal concluiu a investigação em abril de 2026 e encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República. O procedimento tramita sob sigilo.
Na esfera administrativa, o Conselho Nacional de Justiça mantém procedimentos disciplinares contra magistrados investigados. Alexandre Bastos obteve autorização para retornar às funções no fim de setembro.
O desfecho da disputa pela Fazenda Vai Quem Quer representa um resultado patrimonial concreto entre os processos examinados na Operação Ultima Ratio, mas as responsabilidades criminais por eventuais irregularidades judiciais dependem das decisões das autoridades competentes.

