Capilaridade municipal dá ao governador estrutura política, lideranças locais e capacidade de mobilização; adversário petista tenta compensar desvantagem com Lula e alianças partidárias
A disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul começa a revelar uma diferença que vai além dos números das pesquisas eleitorais. Enquanto Eduardo Riedel (PP) conseguiu reunir 77 dos 79 prefeitos do Estado em um único ato político, Fábio Trad (PT) chega à campanha com uma presença muito mais limitada entre os chefes dos Executivos municipais.
O encontro realizado na semana passada em Campo Grande mostrou o tamanho da força municipal construída em torno da candidatura à reeleição. Estiveram presentes 77 prefeitos. Os únicos ausentes foram Adriane Lopes, de Campo Grande, e Marçal Filho, de Dourados, mas ambos já manifestaram apoio a Riedel. Ou seja, politicamente, o governador reivindica apoio dos 79 prefeitos de Mato Grosso do Sul.
O contraste com Fábio Trad é expressivo. Entre os prefeitos, o candidato petista não conseguiu até agora construir uma base comparável à máquina política organizada em torno do governador. A informação de que Trad teria apenas um prefeito efetivamente em seu palanque, porém, merece uma ressalva: nas fontes públicas consultadas, não encontrei documentação suficientemente sólida para cravar esse número como um levantamento fechado e atualizado dos 79 municípios.
Ainda assim, o desequilíbrio é evidente: o próprio Dr. Gabriel, prefeito de Corumbá e filiado ao PSB — partido integrante da aliança de Fábio Trad — declarou apoio a Riedel.
Não são apenas 77 prefeitos, são 77 máquinas políticas locais
O peso dessa fotografia vai muito além de reunir prefeitos em uma sala.
Em uma eleição estadual, prefeitos são algumas das principais engrenagens da articulação política no interior. Eles conhecem lideranças comunitárias, vereadores, empresários, produtores, entidades, servidores, presidentes de associações e grupos capazes de mobilizar eleitores.
Isso não significa — e é importante fazer a distinção — que um prefeito consiga simplesmente “transferir” seus votos para um candidato a governador. Eleitor não pertence ao prefeito e apoio político não equivale automaticamente a voto.
Mas uma rede municipal desse tamanho proporciona algo extremamente valioso numa campanha: capilaridade.
Com aliados espalhados praticamente por todo o Estado, Riedel passa a contar com interlocutores capazes de organizar reuniões, mobilizar lideranças, abrir agendas, reunir apoiadores e potencializar sua presença política em municípios onde uma estrutura própria de campanha teria de ser construída praticamente do zero.
E Mato Grosso do Sul possui uma característica que aumenta a importância dessa estrutura: fora de Campo Grande, o eleitorado está pulverizado por dezenas de municípios.
Riedel ampliou base que já era enorme
A força municipal de Riedel não surgiu agora.
Na eleição de 2022, quando ainda buscava chegar ao Governo do Estado, ele já contava com apoio de aproximadamente 75 dos 79 prefeitos. Quatro anos depois, chega à tentativa de reeleição politicamente ainda mais consolidado entre as administrações municipais.
No encontro com os prefeitos, o governador deixou claro que pretende transformar essa rede de apoios em mobilização eleitoral e convocou os chefes dos Executivos municipais a participarem diretamente da campanha.
É justamente aí que o apoio deixa de ser apenas uma fotografia política.
Se cada prefeito mobilizar vereadores, secretários, lideranças e aliados, a campanha estadual passa a funcionar como dezenas de campanhas municipais operando simultaneamente em favor de uma candidatura.
Relação com municípios virou ativo eleitoral
Riedel também procura transformar sua relação administrativa com as prefeituras em argumento eleitoral.
Obras estaduais, pavimentação, saneamento, infraestrutura urbana, saúde e convênios executados em parceria com municípios ajudam a explicar a aproximação entre prefeitos de diferentes partidos e o Palácio do Parque dos Poderes.
O fenômeno ultrapassa as fronteiras partidárias.
O caso de Corumbá é emblemático. Dr. Gabriel é filiado ao PSB, partido que integra a coligação adversária e apoia Fábio Trad. Mesmo assim, está politicamente com Riedel.
Isso demonstra que a disputa municipal não segue necessariamente a lógica das direções partidárias.
Para um prefeito, manter interlocução com o Governo do Estado pode significar acesso institucional para discutir investimentos, obras e demandas de seu município. Politicamente, essa relação também cria vínculos que acabam aparecendo no período eleitoral.
Fábio tenta compensar desvantagem com Lula
Fábio Trad enfrenta uma equação diferente.
Sem uma rede municipal comparável à do governador, sua campanha aposta principalmente na força nacional do PT, na associação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e no discurso de mudança em relação ao grupo político que governa Mato Grosso do Sul desde 2015.
Essa estratégia já vinha sendo construída desde a pré-campanha. Trad reconhecia um cenário adverso e buscava transformar o apoio de Lula em um dos motores de sua candidatura.
O problema é que uma eleição para governador exige duas estruturas simultâneas: comunicação de massa e presença territorial.
Lula pode oferecer a Fábio uma marca nacional poderosa e ajudar principalmente entre eleitores identificados com o PT. Prefeitos, vereadores e lideranças municipais, entretanto, são aqueles que ajudam a campanha a chegar fisicamente aos bairros, distritos e pequenas cidades.
É justamente nesse segundo terreno que Riedel apresenta hoje uma vantagem expressiva.
A batalha dos palanques municipais
A fotografia dos prefeitos reunidos com Riedel talvez seja uma das imagens mais representativas da correlação de forças desta eleição.
De um lado está um governador candidato à reeleição que conseguiu colocar praticamente todos os chefes dos Executivos municipais dentro de sua órbita política.
Do outro, Fábio Trad precisa construir uma campanha competitiva sem contar, até agora, com uma rede equivalente de prefeitos no interior.
A diferença será colocada à prova quando a campanha ganhar as ruas.
Prefeito não é dono do voto do eleitor, mas controla uma das mercadorias mais importantes de qualquer campanha estadual: capilaridade política.
Riedel começa a corrida eleitoral com essa estrutura praticamente espalhada pelos 79 municípios. Fábio terá de demonstrar que a força de Lula, a militância partidária e seu discurso de oposição são suficientes para enfrentar uma máquina municipal que, pelo tamanho demonstrado no encontro com 77 prefeitos, começa a eleição largando vários passos à frente.

