A desistência do senador Nelsinho Trad (PSD) de disputar a reeleição provocou uma reviravolta na corrida pelo Senado em Mato Grosso do Sul. O deputado federal Vander Loubet (PT) passou a receber o apoio de prefeitos ligados à direita e já teria conquistado a adesão de mais de 40 gestores que anteriormente acompanhavam o parlamentar do PSD.
A movimentação atinge uma das principais bases construídas por Nelsinho durante seus oito anos de mandato. O senador abriu mão da candidatura para ocupar a primeira suplência do ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), líder das pesquisas para o Senado.
Depois da mudança, Azambuja iniciou conversas para manter os prefeitos no grupo e ampliar o apoio ao segundo candidato do PL, o ex-deputado estadual Capitão Contar. As articulações, entretanto, não impediram que parte dos gestores passasse a reservar o segundo voto para Vander.
Como Mato Grosso do Sul elegerá dois senadores, prefeitos da base governista estão formando composições que atravessam as fronteiras partidárias. Em vários municípios, o primeiro voto fica com Azambuja, enquanto o segundo é direcionado ao candidato petista.
Contar não acompanha força de Azambuja
O avanço de Vander também é favorecido pelo desempenho abaixo do esperado de Capitão Contar, que ainda não conseguiu acompanhar o ritmo de Azambuja nem consolidar a segunda vaga para o PL.
Na pesquisa estimulada do Instituto Ranking Brasil Inteligência, Azambuja aparece com 34% no primeiro voto. Contar registra 20%, enquanto Vander alcança 17,8%. A diferença entre os dois é de apenas 2,2 pontos percentuais, exatamente o limite da margem de erro do levantamento, configurando empate técnico.
Na pesquisa espontânea, a distância é ainda menor. Contar aparece com 10% e Vander, com 9,2%. O petista cresceu 5,6 pontos em relação ao levantamento anterior, quando tinha 3,6%, enquanto Contar avançou apenas 1,8 ponto, passando de 8,2% para 10%.
Contar também enfrenta uma rejeição maior. O candidato do PL é rejeitado por 12% dos entrevistados, contra 9,8% de Vander. Os números mostram que, embora permaneça numericamente à frente, o ex-deputado perdeu a condição de favorito isolado à segunda vaga.
No cenário específico para o segundo voto, Contar alcança 25% e Vander aparece com 16,7%. A vantagem existe, mas o movimento dos prefeitos indica que o candidato petista tenta reduzir essa diferença justamente nos municípios onde a estrutura do PL deveria favorecer Contar.
A pesquisa ouviu 2 mil eleitores entre os dias 7 e 12 de agosto, em 30 municípios. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado sob os números MS-09590/2026 e BR-03493/2026. Confira os dados do Instituto Ranking Brasil Inteligência.
Desistência abriu espaço na disputa
Vander já previa esse movimento logo após a saída de Nelsinho. Na ocasião, afirmou que a desistência provocaria uma reorganização da disputa e abriria espaço para dialogar com prefeitos e eleitores que acompanhavam o senador.
O deputado destacou que Nelsinho manteve uma relação institucional com o governo federal e apoiou propostas consideradas importantes para Mato Grosso do Sul, mesmo pertencendo a outro campo político.
Segundo Vander, essa postura facilitou a liberação de investimentos federais para o Estado e criou pontes com lideranças municipais. Nos primeiros dias depois da desistência, o petista afirmou ter recebido contatos de mais de 30 prefeitos interessados em conversar sobre a eleição.
O número teria aumentado e já ultrapassaria 40 gestores, muitos deles identificados com o bolsonarismo ou filiados a partidos que integram a base de Azambuja e do governador Eduardo Riedel (PP).
Prefeito do PL escolhe Azambuja e Vander
Um dos exemplos mais emblemáticos é o prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro. Filiado ao PL, partido que lançou Azambuja e Contar ao Senado, ele anunciou que dividirá seus votos entre o ex-governador e Vander Loubet.
Ferro declarou o primeiro voto para Azambuja e o segundo para o deputado petista. A decisão, segundo o prefeito, foi motivada pela proximidade política construída com Vander e pelo apoio recebido pelo município durante sua gestão.
O prefeito afirmou que já participou de três campanhas do petista e classificou o deputado como um parceiro de Ivinhema na Câmara Federal. A declaração provocou reação dentro do próprio PL, mas Ferro manteve o posicionamento.
Ao apoiar simultaneamente um candidato do PL e outro do PT, o gestor reproduz uma composição que começa a aparecer em diferentes regiões: fidelidade ao grupo governista no primeiro voto e reconhecimento da atuação parlamentar no segundo.
Prefeito do PSD também adere à composição
Em Glória de Dourados, o prefeito Julio Buguelo, filiado ao PSD de Nelsinho Trad, anunciou uma escolha semelhante. Ele declarou apoio a Azambuja e Vander para o Senado, além de defender a reeleição de Eduardo Riedel.
Buguelo classificou Azambuja como uma liderança municipalista e afirmou que trabalhará pela continuidade de Riedel no governo estadual. Para o segundo voto, escolheu Vander, reforçando o avanço do petista entre gestores que integravam a base de Nelsinho.
A composição mostra que o apoio ao candidato do PT não significa, necessariamente, uma ruptura com o PL ou com o grupo governista. Vander tenta ocupar o espaço deixado pelo senador sem exigir que os prefeitos abandonem Azambuja ou Riedel.
Segundo voto vira peça-chave
A estratégia coloca o segundo voto no centro da corrida pelo Senado. Em vez de disputar diretamente o eleitorado consolidado de Azambuja, Vander busca se apresentar como uma opção complementar entre prefeitos que mantêm vínculos com a direita, mas reconhecem sua atuação na liberação de recursos para os municípios.
O movimento aumenta a pressão sobre Contar. Apesar de contar com o apoio formal do PL, o candidato ainda não recebe dos prefeitos ligados ao partido a mesma adesão destinada a Azambuja.
Com a saída de Nelsinho, a disputa deixou de seguir uma divisão partidária rígida. Prefeitos bolsonaristas passaram a apoiar um petista, enquanto candidatos de campos opostos dividem os mesmos palanques municipais.
A costura mostra que, na disputa pelas duas vagas ao Senado, os interesses locais, a destinação de recursos e as relações construídas durante os mandatos podem pesar mais do que a polarização nacional.
