A dona de um brechó em Campo Grande aparece no centro das investigações da Operação Gutenberg, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que apura um suposto esquema de fraudes em contratos para fornecimento de livros paradidáticos a prefeituras de Mato Grosso do Sul.
Segundo o relatório do Ministério Público Estadual, Rhayane Souza Fanaia é a proprietária formal da Editora Avante, empresa que movimentou cerca de R$ 5 milhões em contratos públicos. Para os investigadores, porém, seu perfil econômico não seria compatível com o porte dos negócios realizados pela editora, uma vez que ela se apresentava publicamente como proprietária de um brechó.
A apuração também destaca que a empresa foi criada em 2021, no mesmo ano da morte de Micherd Jafar Júnior, ex-proprietário da Gráfica e Editora Alvorada. Rhayane é casada com Giovanni Paroschi Jafar, filho de Micherd, e integra o núcleo familiar investigado pelo Gaeco.
Com capital social declarado de apenas R$ 40 mil, a Editora Avante firmou contratos milionários, em grande parte por dispensa de licitação. Em Miranda, por exemplo, vendeu livros pelo valor de R$ 1,44 milhão. Em Ivinhema, fechou contrato de R$ 586,8 mil, que recebeu um aditivo menos de um mês depois, elevando o total para R$ 874,1 mil. Outro contrato, em Ladário, somou R$ 459,2 mil.
Diante dessas movimentações, os investigadores levantaram a hipótese de que Rhayane pudesse atuar apenas como proprietária formal da empresa. O relatório questiona se ela seria realmente a administradora da editora ou apenas uma “laranja” utilizada para ocultar os verdadeiros responsáveis pelo negócio.
As investigações revelaram ainda que Rhayane avisava a sogra, Rossana Paroschi Jafar, sempre que os pagamentos das prefeituras eram depositados na conta da empresa. Conforme o Gaeco, ela também realizava sucessivos saques em dinheiro e fazia transferências via Pix para outros investigados e empresas, seguindo orientações de integrantes do grupo.
O Ministério Público identificou que a Editora Avante distribuiu recursos para mais de 40 pessoas físicas e jurídicas, incluindo investigados da Operação Gutenberg. Entre os beneficiários estariam a filha do ex-coordenador da regulação estadual da Saúde, Ed Carlo Burgatt, o advogado Gabriel Taquino de Paula e outros investigados apontados como integrantes do suposto esquema.
Para o Gaeco, os saques em espécie e a pulverização dos recursos financeiros teriam sido utilizados para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro e ocultar a destinação dos valores obtidos com os contratos firmados junto às prefeituras sul-mato-grossenses.
