Cigarros lideram a lista dos produtos mais lucrativos, mas medicamentos, eletrônicos e brinquedos também alimentam o mercado ilegal; Mato Grosso do Sul está entre as principais rotas de entrada no País
O contrabando de mercadorias provenientes do Paraguai continua sendo uma das principais fontes de financiamento do crime organizado no Brasil. Estimativas de especialistas apontam que o mercado clandestino movimenta cerca de R$ 60 bilhões por ano, impulsionado por produtos que entram no país sem o pagamento de tributos e são revendidos com margens de lucro que podem superar 500%.
Além dos prejuízos à economia formal, o comércio ilegal fortalece organizações criminosas, amplia a concorrência desleal com empresas legalizadas e reduz a arrecadação de impostos. O avanço dessas atividades também tem intensificado a presença de facções em cidades de fronteira e nos principais corredores logísticos utilizados para distribuir as mercadorias pelo território nacional.
Embora a região de Foz do Iguaçu (PR) seja historicamente um dos maiores pontos de entrada de produtos contrabandeados, Mato Grosso do Sul ocupa posição estratégica nesse cenário. O Estado possui aproximadamente 1.500 quilômetros de fronteira com o Paraguai, abrangendo municípios como Ponta Porã, Coronel Sapucaia, Paranhos, Aral Moreira, Bela Vista, Porto Murtinho, Mundo Novo e Sete Quedas. A extensa faixa de fronteira, marcada por trechos secos, estradas vicinais e rios, facilita a atuação de organizações especializadas na travessia de cargas ilegais.
As cidades-gêmeas localizadas na divisa, especialmente Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, tornaram-se importantes corredores para a entrada de cigarros, medicamentos, aparelhos eletrônicos, defensivos agrícolas, cigarros eletrônicos, brinquedos e outros produtos que abastecem mercados clandestinos em diversas regiões do Brasil.
Cigarro lidera rentabilidade
Levantamento do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf) aponta que o cigarro fabricado no Paraguai continua sendo o item mais rentável para as quadrilhas. A diferença de preços entre os mercados brasileiro e paraguaio, aliada à evasão fiscal, permite margens de lucro superiores a 500%.
Na sequência aparecem medicamentos, incluindo anabolizantes e peptídeos, smartphones e outros eletrônicos de alto valor agregado. Também figuram entre os produtos frequentemente apreendidos perfumes, bebidas alcoólicas, pneus, vestuário, pilhas, baterias, agrotóxicos e equipamentos de informática.
Especialistas avaliam que apenas uma pequena parcela das mercadorias ilegais é interceptada pelas forças de segurança, o que indica que o volume financeiro movimentado pelo contrabando pode ser ainda maior do que as estimativas atuais.
Estrutura semelhante à de grandes empresas
O contrabando deixou de ser uma atividade restrita aos antigos “sacoleiros” e passou a ser controlado por organizações criminosas com elevada capacidade logística. As quadrilhas utilizam motoristas, veículos preparados para ocultar cargas, empresas de fachada, operadores financeiros e rotas alternativas para reduzir o risco de apreensões.
Além dos custos com transporte, o esquema prevê recursos destinados à substituição de veículos apreendidos, contratação de advogados e manutenção da estrutura operacional, funcionando de maneira semelhante à gestão de uma empresa, porém voltada para atividades ilícitas.
Impacto na segurança pública
As mesmas rotas utilizadas para o contrabando também são exploradas para o tráfico de drogas, armas e munições, ampliando os desafios enfrentados pelas forças de segurança. Em Mato Grosso do Sul, operações conjuntas da Polícia Federal, Receita Federal, Polícia Rodoviária Federal e das polícias estaduais têm resultado em apreensões frequentes de cargas milionárias e na desarticulação de organizações criminosas que atuam na faixa de fronteira.
Autoridades consideram o reforço da fiscalização, o uso de inteligência e a cooperação entre Brasil e Paraguai medidas essenciais para reduzir o fluxo de mercadorias ilegais e enfraquecer uma das principais fontes de financiamento das facções criminosas que atuam no país.
Cigarros lideram o lucro do crime organizado no contrabando via Paraguai
O chamado “custo contrabando” é, em média, de 22%
Embora o lucro seja menor, canetas emagrecedoras e cigarros eletrônicos são alvos frequentes do crime, por ocuparem menos espaço no transporte que o cigarro convencional

