A valorização da arroba do boi gordo já começa a refletir no preço da carne bovina em Mato Grosso do Sul e pesa no orçamento dos consumidores. Em 2026, a cotação da arroba acumula alta de 8,9%, enquanto alguns cortes tradicionais registram aumentos de até 11,73%, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Nos últimos 12 meses, a arroba valorizou 12,1%, passando de R$ 296,71, em agosto de 2025, para R$ 332,68. Desde o início deste ano, quando era negociada a R$ 305,35, a alta chega a quase 9%.
Embora o reajuste da arroba não seja repassado imediatamente ao consumidor, ela representa o principal custo da matéria-prima para os frigoríficos. À medida que as indústrias renovam estoques e negociam com distribuidores e supermercados, o aumento acaba chegando às gôndolas.
Os números do IPCA mostram esse movimento. No acumulado de 2026, o grupo carnes registra inflação de 7,61%. Entre os cortes com maior alta estão a ponta de peito (11,73%), a paleta (10,13%), a costela (8,78%), o coxão mole (7,46%) e o contrafilé (6,03%).
Na comparação com os últimos 12 meses, o contrafilé lidera os reajustes, com alta de 14,05%, seguido pela ponta de peito (12,86%), paleta (12,44%), coxão mole (11,28%) e costela (6,68%). O conjunto das carnes acumula inflação de 8,71% no período.
Oferta menor sustenta preços
Levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) aponta que a valorização da arroba é resultado da combinação entre a redução da oferta de animais prontos para abate e a demanda aquecida, principalmente no mercado externo.
Segundo o boletim técnico da entidade, a arroba do boi gordo fechou julho cotada a R$ 330,67, com valorização anual de 8,3%. O relatório destaca que o bom desempenho das exportações continua sustentando os preços, ao absorver parte da produção destinada ao mercado interno.
A Famasul também ressalta que, em 2026, a menor disponibilidade de animais favorece a recuperação da remuneração ao produtor rural.
Dados da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) reforçam esse cenário. Entre janeiro e junho deste ano, Mato Grosso do Sul abateu 2,08 milhões de bovinos, volume 1,6% menor que o registrado no mesmo período de 2025.
Exportações impulsionam mercado
As vendas externas também ajudam a explicar a valorização da carne. No primeiro semestre de 2026, Mato Grosso do Sul exportou US$ 1,42 bilhão em carnes, crescimento de 40% em relação ao mesmo período do ano passado. O segmento respondeu por 25,1% de toda a receita das exportações do agronegócio estadual, consolidando-se como a segunda principal pauta do setor.
Para o economista Eugênio Pavão, o perfil exportador do Estado reduz a oferta disponível no mercado interno e contribui para o aumento dos preços.
Segundo ele, mesmo com restrições impostas por alguns mercados internacionais, a carne bovina continua sendo uma das principais fontes de geração de divisas para Mato Grosso do Sul. Quanto maior o volume embarcado ao exterior, menor tende a ser a disponibilidade do produto para os consumidores brasileiros.
O economista explica ainda que o aumento da arroba não chega imediatamente ao varejo porque a carne passa por diferentes etapas de comercialização, envolvendo frigoríficos, distribuidores e supermercados, cada uma com custos e margens próprias.
Queda tende a ser mais lenta
Eugênio Pavão observa que o comportamento dos preços segue uma característica comum da economia: os aumentos costumam ser repassados rapidamente, enquanto as reduções ocorrem de forma gradual.
De acordo com ele, quando os custos de produção sobem, o reajuste chega mais rapidamente ao consumidor. Já em períodos de queda, fatores como estoques, concorrência e negociações ao longo da cadeia fazem com que os preços recuem lentamente.
A expectativa do setor é de que os preços da carne permaneçam firmes nos próximos meses, especialmente se a oferta de animais continuar restrita e o ritmo das exportações seguir aquecido. Analistas avaliam que, apesar das oscilações naturais do mercado, uma redução significativa no preço da carne no curto prazo é considerada pouco provável.

