O preço da arroba do boi gordo atingiu o maior patamar da série histórica e já impacta o bolso do consumidor brasileiro. Impulsionada pelo avanço das exportações e pela retomada do consumo interno, a alta reduz a oferta no mercado doméstico e pressiona toda a cadeia produtiva — com reflexos diretos em Mato Grosso do Sul, um dos principais polos pecuários do país.
A cotação da arroba — equivalente a 15 quilos — acumula valorização de 26,5% em 2026 e alcançou US$ 73,58 na última quarta-feira (15), segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada. O valor supera o recorde anterior, de US$ 73,53, registrado em abril de 2022. Os preços são monitorados diariamente desde julho de 1997.
O ciclo de alta é resultado de uma combinação de fatores. No cenário externo, a demanda aquecida — especialmente de países asiáticos — mantém as exportações brasileiras em ritmo elevado. Com o câmbio favorável, a carne brasileira ganha competitividade no mercado internacional, incentivando frigoríficos a direcionarem maior volume para fora do país.
Internamente, o consumo também mostra sinais de recuperação após períodos de retração, o que amplia a pressão sobre a oferta. Além disso, o atual momento do ciclo pecuário — com menor disponibilidade de animais prontos para abate — contribui para sustentar os preços em níveis elevados.
Em Mato Grosso do Sul, estado com um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, os efeitos da valorização são percebidos em diferentes elos da cadeia. No campo, pecuaristas encontram um cenário mais favorável, com melhora nas margens e maior poder de negociação. A retenção de fêmeas para recomposição do rebanho, prática comum em fases de alta, também reduz a oferta imediata de animais, reforçando a pressão sobre os preços.
Já a indústria frigorífica enfrenta um ambiente mais desafiador. O custo mais elevado para aquisição de boi gordo comprime margens, especialmente para empresas que atuam no mercado interno. Como resultado, parte desse aumento tende a ser repassado ao varejo.
Nos açougues e supermercados sul-mato-grossenses, o impacto começa a aparecer de forma gradual. Cortes dianteiros e de maior giro já registram reajustes, enquanto peças nobres seguem trajetória de alta mais acentuada. Para o consumidor, isso significa menor poder de compra e possível migração para proteínas alternativas, como frango e suínos.
Analistas do setor avaliam que o cenário de preços firmes deve persistir no curto e médio prazo. A continuidade das exportações em níveis elevados, somada à oferta ainda restrita de animais para abate, tende a sustentar a arroba em patamares altos. Eventuais quedas dependeriam de uma desaceleração da demanda externa ou de uma recomposição mais rápida do rebanho — fatores que, no momento, não aparecem com força no horizonte.
Enquanto isso, mesmo em estados produtores como Mato Grosso do Sul, o consumidor final já sente no dia a dia o efeito de um mercado cada vez mais globalizado, onde o preço da carne no prato está diretamente ligado à demanda internacional.
