Embargo europeu começa nesta quinta-feira e atinge um dos principais produtos da pauta de exportações de Mato Grosso do Sul; Estado vendeu 14 mil toneladas de carne bovina ao bloco em 2025
O embargo da União Europeia aos produtos de origem animal do Brasil, que entra em vigor nesta quinta-feira (3), atinge diretamente Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina do país. A partir de agora, ficam suspensos os embarques brasileiros de carne bovina, suína e de frango, além de pescados, mel e ovos, para os 27 países do bloco europeu.
Para Mato Grosso do Sul, o impacto é especialmente relevante na pecuária. Somente em 2025, o Estado exportou 14 mil toneladas de carne bovina para países da União Europeia, movimentando US$ 126 milhões. O produto respondeu por 9,68% de tudo o que MS vendeu ao bloco naquele ano, segundo levantamento da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).
No total, Mato Grosso do Sul exportou US$ 1,3 bilhão para a União Europeia em 2025, equivalente a 3,76 milhões de toneladas de mercadorias. O bloco foi o segundo mais importante para as exportações estaduais, considerando os grandes mercados internacionais. Celulose, farelo de soja e carne bovina lideraram a pauta de vendas.
O embargo chega em um momento de forte expansão das exportações sul-mato-grossenses de carne. Entre janeiro e julho deste ano, MS faturou US$ 1,33 bilhão com carne bovina no mercado internacional, alta de 43,57% em relação ao mesmo período de 2025. O produto já representa 18,41% de tudo o que o Estado vende ao exterior.
Outro dado mostra a importância do mercado europeu para a economia estadual: nos sete primeiros meses de 2026, os Países Baixos, integrantes da União Europeia, apareceram como o terceiro principal destino de todas as exportações de Mato Grosso do Sul, com participação de 4,11%, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.
Por que a União Europeia suspendeu as compras
A União Europeia anunciou o bloqueio após retirar o Brasil da relação de países considerados em conformidade com as regras europeias para utilização de antimicrobianos na produção animal.
Essas substâncias são utilizadas no tratamento de infecções, mas a legislação europeia proíbe seu emprego como promotor de crescimento dos animais e também restringe antimicrobianos considerados estratégicos e reservados ao tratamento de seres humanos.
O veto não decorre da identificação de carne brasileira contaminada ou imprópria para consumo. A discussão está relacionada aos mecanismos brasileiros de controle, rastreabilidade e comprovação do uso dessas substâncias na criação dos animais.
O governo brasileiro tenta reverter a decisão desde que o bloqueio foi anunciado. Entre as providências adotadas está a proibição de determinados antimicrobianos e a criação de um novo protocolo para rastrear os animais e comprovar que as substâncias vetadas pela legislação europeia não foram utilizadas.
As empresas brasileiras habilitadas a vender carne bovina à União Europeia também passaram a aderir ao novo sistema de controle.
Carne bovina pode enfrentar demora maior
Embora o governo brasileiro trabalhe para reabrir o mercado, a retomada não deverá ocorrer de forma imediata.
Nesta semana, técnicos europeus realizam uma auditoria no Brasil concentrada inicialmente nas cadeias de produção de frango e mel. Os trabalhos devem ser concluídos nesta sexta-feira (4), mas a análise dos resultados pela União Europeia pode levar aproximadamente dois meses.
Para a carne bovina, a situação é mais delicada. Mesmo que as exigências sejam atendidas e o veto seja posteriormente retirado, a adequação às regras de rastreabilidade pode fazer com que a retomada efetiva das exportações leve mais tempo, chegando a cerca de dois anos.
Isso aumenta a preocupação para estados fortemente ligados à pecuária, como Mato Grosso do Sul.
Embargo contrasta com acordo Mercosul-UE
A suspensão ocorre poucos meses depois da entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
O tratado estabeleceu novas condições de acesso ao mercado europeu e criou cotas específicas para produtos como carne bovina, carne suína e carne de aves. Para Mato Grosso do Sul, o governo estadual vinha avaliando o acordo como oportunidade para ampliar as exportações e aumentar a competitividade dos produtos locais.
Representantes do agronegócio brasileiro passaram a questionar o momento da decisão europeia e veem componentes protecionistas na medida, principalmente diante da resistência histórica de produtores rurais da Europa à abertura do mercado para produtos agropecuários do Mercosul.
Argentina, Paraguai e Uruguai, os outros integrantes do bloco sul-americano, continuam autorizados a vender produtos de origem animal para a União Europeia.
Para Mato Grosso do Sul, portanto, o embargo não ameaça o conjunto das exportações ao bloco — celulose e farelo de soja, por exemplo, permanecem fora da restrição —, mas fecha temporariamente um mercado de alto valor agregado para a carne bovina, justamente em um momento de expansão dos embarques do Estado.
