Da tradição ao medo: violência toma conta da Rua 14 de Julho em Campo Grande
Símbolo da história e da transformação de Campo Grande, a tradicional Rua 14 de Julho vive um contraste que preocupa quem trabalha, mora e circula pelo Centro. Conhecida durante décadas pelo comércio, pela movimentação e, mais recentemente, pela concentração de bares e restaurantes, a via passou a conviver cada vez mais com um problema que ameaça mudar sua rotina: a violência.
O que deveria ser um dos principais cartões-postais da região central tornou-se cenário de furtos, depredações, brigas e ocorrências que aumentam a sensação de insegurança entre comerciantes e frequentadores.
A preocupação não está apenas nos prejuízos provocados pelos crimes. O avanço da violência atinge diretamente a ocupação da rua e coloca em risco o esforço de revitalização do Centro, que busca recuperar o movimento e devolver à população espaços tradicionalmente frequentados pelos campo-grandenses.
A 14 de Julho carrega parte importante da memória de Campo Grande. É uma rua que atravessa gerações e que, durante décadas, esteve associada ao comércio e à vida urbana da Capital. Hoje, porém, comerciantes relatam uma realidade diferente: portas fechadas, estabelecimentos alvo de furtos e o receio de que a insegurança afaste clientes.
O cenário reacende uma pergunta que há anos acompanha a região central: como recuperar uma área tradicional da cidade se as pessoas têm medo de frequentá-la?
Mais do que uma sequência de ocorrências policiais, a violência na 14 de Julho representa um desafio para o próprio projeto de revitalização do Centro. A rua precisa voltar a ser lembrada pelo movimento, pelo comércio e pela convivência — e não pelas notícias de crimes.
A pressão agora recai sobre as forças de segurança e o poder público para reforçar o policiamento, melhorar a iluminação, ampliar o monitoramento e garantir que a população possa voltar a ocupar a tradicional rua sem medo.
MORTE
A morte de um jovem de 21 anos durante a movimentação da noite de sábado (8) voltou a colocar em evidência a preocupação de frequentadores e comerciantes com a segurança na Rua 14 de Julho, um dos principais polos de bares, cultura e lazer de Campo Grande.
Nos últimos anos, o trecho entre as avenidas Afonso Pena e Mato Grosso recuperou parte da tradição boêmia do Centro, atraindo público em busca de música, gastronomia e entretenimento. Entretanto, a sequência de brigas e episódios de violência tem gerado receio entre quem frequenta a região e entre empresários que atuam no local.
O caso mais recente ocorreu no cruzamento com a Rua Maracaju, onde Kayke Juliano dos Santos Theotônio, de 21 anos, foi morto com um golpe de faca enquanto a via ainda registrava grande circulação de pessoas.
Apelo pela preservação da região
O influenciador digital Pablo Alves, conhecido pelo perfil “Eita Pega Vei”, gravava conteúdo para as redes sociais quando o crime aconteceu nas proximidades. Frequentador da Rua 14 de Julho desde o início da revitalização da vida noturna, ele afirma que a violência ameaça um dos principais espaços de convivência da Capital.
Segundo ele, a rua se consolidou como um dos principais pontos de encontro da cidade, mas vem sendo prejudicada pela ação de pessoas que procuram o local para provocar confusões.
Após o crime, Pablo publicou um vídeo nas redes sociais defendendo que a população ajude a preservar a região. No apelo, pede que os frequentadores respeitem o espaço, evitem incentivar conflitos e acionem as forças de segurança sempre que presenciarem situações de violência.
Insegurança aumenta no fim da noite
Uma servidora pública que costuma frequentar os bares da Rua 14 de Julho desde 2024 relata que a sensação de insegurança cresce principalmente após as 22 horas, quando parte dos estabelecimentos inicia o encerramento das atividades.
Segundo ela, é justamente nesse período que grupos interessados em confusão passam a permanecer nas esquinas, enquanto o público que buscava apenas lazer deixa o local.
A frequentadora afirma que, diante da mudança no ambiente, passou a escolher outros pontos da cidade para sair com amigos, lamentando que um espaço antes marcado pela convivência tranquila hoje desperte preocupação com episódios de violência.
Comerciantes cobram reforço na segurança
Empresários da região também demonstram preocupação. Um comerciante, que preferiu não se identificar, afirma que os estabelecimentos investem em segurança privada para proteger clientes e funcionários, mas considera insuficiente a estrutura de segurança pública disponível no Centro.
Na avaliação dele, as ações de fiscalização têm priorizado questões como perturbação do sossego, alvarás e controle do som, enquanto o policiamento preventivo seria insuficiente para inibir crimes e garantir tranquilidade aos frequentadores.
O DJ Gustavo Santos da Costa, conhecido como DJ Gutto, compartilha da mesma percepção. Segundo ele, quem trabalha na região sente-se vulnerável, mesmo com a presença de viaturas.
Para o artista, a população espera uma atuação preventiva capaz de desestimular brigas e transmitir segurança, e não apenas operações voltadas ao cumprimento da legislação relacionada ao funcionamento dos estabelecimentos. Ele afirma que o aumento da violência gera insegurança tanto para trabalhadores quanto para o público que frequenta a Rua 14 de Julho.
