As investigações sobre a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) em Mato Grosso do Sul revelam que o sistema prisional ocupa papel estratégico na estrutura da organização criminosa no Estado. Documentos apreendidos durante a Operação Ponto Cego, em 2020, mostram que integrantes eram admitidos formalmente na facção dentro de presídios, circulavam por diferentes unidades penais e, posteriormente, assumiam funções ligadas à disciplina, comunicação, finanças e comando regional.
De acordo com o relatório elaborado a partir das planilhas apreendidas, a facção já possuía integrantes identificados em pelo menos sete presídios de Mato Grosso do Sul e mantinha atuação em 16 municípios.
Atualmente, segundo o secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, integrantes ou simpatizantes de facções criminosas estão presentes em aproximadamente metade das unidades prisionais do Estado. A predominância é atribuída ao PCC, embora o Comando Vermelho (CV) também tenha atuação no sistema penitenciário. Conforme o secretário, a superlotação das unidades favorece o recrutamento de presos pelas organizações criminosas, que disputam principalmente as rotas do tráfico de cocaína provenientes da Bolívia e do Paraguai.
Mato Grosso do Sul possui 41 unidades penais administradas pela Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário). O sistema abriga 18.875 internos entre os regimes fechado e semiaberto. Desse total, 15.096 homens e 997 mulheres cumprem pena em regime fechado, enquanto 2.665 homens e 117 mulheres estão no semiaberto.
Videira afirma que não há divulgação do número exato de integrantes das facções porque esse monitoramento é realizado pelos setores de inteligência. Segundo ele, muitos presos evitam declarar vínculo com organizações criminosas por receio de consequências jurídicas durante o processo penal.
Cadastro detalhava trajetória dos integrantes
As planilhas analisadas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) registravam informações como data e local do chamado “batismo” — cerimônia que marca o ingresso formal na facção —, cidade de origem, funções exercidas e as chamadas “últimas faculdades”, expressão utilizada para indicar os estabelecimentos penais pelos quais o integrante passou.
Os arquivos foram encontrados em um telefone celular apreendido em julho de 2020 e continham 426 cadastros atribuídos ao PCC. Após cruzamento das informações com bancos de dados policiais e penitenciários, o Gaeco identificou 110 integrantes, dos quais 100 foram denunciados à Justiça.
Em diversos casos, o local do “batismo” coincide com a unidade prisional onde o preso estava custodiado naquele período, indicando que o recrutamento ocorria dentro do sistema penitenciário.
Presídios aparecem como centros de organização
A Penitenciária de Dois Irmãos do Buriti aparece em diversos registros como local de ingresso de integrantes. Um dos cadastrados, identificado pelos apelidos “Koringa” e “Sheik”, teria sido batizado em junho de 2018 enquanto cumpria pena na unidade. Posteriormente, passou pelos presídios de Coxim e pelo Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, em Campo Grande, até assumir a função de “Salveiro da Disciplinar Rota Norte”, responsável pela transmissão de comunicados internos da organização.
Outro integrante, conhecido como “Metralha” ou “Salsicha”, também teve o ingresso registrado em Dois Irmãos do Buriti. Sua ficha aponta passagens pelo complexo penitenciário da Capital e vinculação posterior à região de São Gabriel do Oeste.
O Estabelecimento Penal Jair Ferreira de Carvalho, conhecido como Presídio de Segurança Máxima de Campo Grande, aparece repetidamente nas planilhas. Em vários registros, o Pavilhão 2A é citado como local de batismo de integrantes que posteriormente assumiram cargos de liderança regional e estadual dentro da organização.
As fichas indicam ainda que alguns membros passaram a exercer funções relacionadas à disciplina dos presos, coordenação regional e administração financeira da facção, embora os documentos não expliquem como essas promoções ocorriam nem indiquem que todos os internos dessas unidades integrassem a organização criminosa.
Dourados e Naviraí também aparecem no relatório
A Penitenciária Estadual de Dourados (PED) é outro estabelecimento frequentemente citado. Um dos integrantes, identificado como “Fronteira”, teria sido batizado no setor de Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) da unidade em dezembro de 2017. O histórico também relaciona sua atuação aos municípios de Mundo Novo e Dourados.
Relatórios penitenciários anexados ao processo indicam que presos identificados como integrantes ou simpatizantes de facções eram mantidos em celas ou pavilhões separados de grupos rivais para evitar confrontos. Segundo os investigadores, essa medida concentrava detentos com vínculos semelhantes, embora não haja indicação de que a administração penitenciária promovesse recrutamentos.
Já a Penitenciária de Segurança Máxima de Naviraí aparece como ponto de passagem de integrantes ligados ao Cone Sul do Estado. Um dos investigados, conhecido como “Beiço”, passou por diferentes cidades antes de assumir funções de coordenação regional e, posteriormente, ser transferido para a unidade de Dourados.
Além dos grandes presídios, as planilhas citam o Centro Penal Agroindustrial da Gameleira, o Presídio de Trânsito e unidades de regimes aberto e semiaberto, formando um histórico da circulação dos integrantes pelo sistema prisional.
Comunicação entre presos e integrantes em liberdade
Segundo o relatório, as funções de “Disciplina” e “Geral” permitiam a ligação entre lideranças presas e integrantes que permaneciam em liberdade. Cabia a esses membros transmitir ordens, acompanhar simpatizantes e manter a comunicação entre diferentes regiões.
Os investigadores também mencionam um episódio em que suspeitos de tentar furtar uma agência bancária afirmaram ter recebido ordens de líderes da organização que estavam presos, fato apontado como exemplo da capacidade de comando exercida pelas facções mesmo a partir do interior das unidades prisionais.
