Eleição de MS: o que realmente está em jogo
A eleição começa com uma característica muito clara: Eduardo Riedel chega ao período de campanha com vantagem expressiva nas pesquisas, mas a entrada de Delcídio acrescenta uma variável importante, porque o ex-senador tem histórico eleitoral próprio e já chegou ao segundo turno para governador.
A pesquisa mais recente do Real Time Big Data, realizada de 1º a 5 de agosto com 1.600 eleitores, mostra:
- Eduardo Riedel (PP): 44%
- Fábio Trad (PT): 25%
- João Henrique Catan (Novo): 12%
- Lucien Rezende (PSOL): 3%
- Renato Gomes (DC): 3%
- Jefferson Bezerra (Agir): 1%
- Branco/nulo: 6%
- Não sabe/não respondeu: 6%
O levantamento foi divulgado em 6 de agosto, praticamente junto à oficialização de Delcídio. Delcídio, portanto, não aparece nesse cenário estimulado da pesquisa mais recente, o que impede medir diretamente seu impacto depois da confirmação da candidatura.
Esse detalhe é fundamental.
1. Riedel: a vantagem é grande, mas não significa eleição encerrada
O governador começa a campanha com uma situação eleitoral confortável.
Além dos 44% no primeiro turno, Riedel aparece com 54% contra 32% de Fábio Trad na simulação de segundo turno feita pelo mesmo instituto.
Isso mostra duas coisas diferentes:
Primeiro: existe uma vantagem de intenção de voto no primeiro turno.
Segundo: existe também vantagem quando o eleitor é colocado diante de uma disputa binária.
Mas há uma ressalva metodológica importante: pesquisa eleitoral é uma fotografia do momento. A campanha oficial começa em 16 de agosto, e o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa em 28 de agosto. Portanto, ainda haverá um período significativo para exposição dos candidatos e mudanças de percepção.
O problema estratégico de Riedel
Quanto mais candidatos entram na disputa, mais difícil fica interpretar o resultado de uma pesquisa anterior.
Delcídio acabou de ser oficializado. A campanha ainda nem começou. Portanto, não é possível afirmar que Riedel manterá 44% depois que Delcídio começar efetivamente a campanha.
2. Fábio Trad: hoje é o principal nome da oposição nas pesquisas
Fábio Trad aparece em segundo lugar na pesquisa Real Time, com 25%, 19 pontos atrás de Riedel.
O dado mais interessante é que ele também aparece como adversário de Riedel no cenário de segundo turno testado pelo instituto.
Isso significa que, neste momento, a principal variável para Fábio é transformar a intenção de voto que já possui em uma candidatura competitiva durante a campanha.
O PT também tem uma vantagem estrutural: consegue nacionalizar a eleição. A presença de Lula na campanha pode aumentar a identificação de Fábio Trad com o eleitorado petista.
Mas existe o outro lado: uma eleição estadual pode ser decidida muito mais por avaliação da administração estadual, alianças locais, prefeitos, estrutura partidária e conhecimento dos candidatos do que pela polarização nacional.
3. João Henrique Catan: o fator que pode complicar a oposição
Catan aparece com 12% na pesquisa mais recente.
Ele ocupa um espaço diferente de Fábio Trad.
Catan pode trabalhar uma candidatura de oposição ao establishment político, especialmente junto ao eleitorado identificado com a direita e com discurso de renovação.
Isso cria uma situação interessante:
a oposição não está concentrada em apenas um candidato.
Há pelo menos três espaços diferentes:
- Fábio Trad → esquerda/centro-esquerda;
- Catan → direita/eleitorado de renovação;
- Delcídio → eleitorado próprio, com possibilidade de buscar centro e eleitores menos identificados com a polarização.
Essa divisão pode ser importante para o resultado do primeiro turno.
4. E aqui entra Delcídio
A candidatura de Delcídio é provavelmente a principal novidade política da última semana.
A Federação Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade, oficializou Delcídio como candidato ao Governo, com Francisca Esmeralda Ajala como vice. Com isso, o número de candidatos chegou a oito.
O dado histórico é relevante.
Delcídio já disputou o Governo de MS duas vezes.
Em 2014, chegou ao segundo turno contra Reinaldo Azambuja. Terminou a eleição com 44,66% dos votos válidos, contra 55,34% de Azambuja. Foram 598.461 votos para Delcídio.
Portanto, ele não entra na eleição como um candidato desconhecido.
5. O que Delcídio pode fazer com a eleição?
Aqui é preciso separar fato de hipótese eleitoral.
Não existe ainda pesquisa posterior à oficialização que permita afirmar quantos pontos Delcídio poderá conquistar.
Mas podemos identificar os possíveis movimentos.
Cenário A — Delcídio cresce
Se Delcídio conseguir recuperar parte de seu antigo eleitorado e transformar conhecimento de nome em intenção de voto, ele pode entrar na disputa pelas primeiras posições.
Uma pesquisa do Instituto Ranking divulgada no fim de julho, realizada antes da oficialização, já testava Delcídio e apontava 5% em determinado cenário, atrás de Riedel, Fábio Trad e Catan.
Esse dado é interessante porque mostra que ele já tinha algum nível de lembrança eleitoral antes mesmo da campanha oficial.
Mas não se deve comparar diretamente os 5% dessa pesquisa com os números do Real Time, porque são levantamentos diferentes, com metodologia e período distintos.
6. Quem pode perder espaço com Delcídio?
Essa é uma das questões mais interessantes da eleição.
Não necessariamente Riedel.
Delcídio pode disputar eleitores que atualmente estão distribuídos entre diferentes candidaturas.
Fábio Trad
Pode haver alguma sobreposição entre Delcídio e Fábio no eleitorado de centro-esquerda e entre eleitores que possuem rejeição ao atual governo.
Mas existe uma diferença importante: Delcídio já não é candidato pelo PT.
Isso permite que tente construir uma candidatura menos vinculada à polarização Lula x oposição, embora seja impossível prever se conseguirá ocupar efetivamente esse espaço.
Catan
Aqui existe outro possível cruzamento.
Se Delcídio tentar atrair eleitores que rejeitam os grupos políticos tradicionais, poderá encontrar Catan no mesmo território eleitoral.
Mas Catan possui uma identidade política mais definida no campo da direita, enquanto Delcídio tem uma trajetória política que atravessa diferentes campos partidários.
Riedel
Também pode haver transferência de votos de eleitores moderados ou independentes, mas isso dependerá muito da estratégia de campanha.
7. O grande problema da oposição: fragmentação
Esse talvez seja o aspecto estrutural mais importante.
Hoje, a oposição não aparece unificada.
Temos:
Fábio Trad + Catan + Delcídio + Lucien + Renato + Jefferson + Daniel.
Mesmo que os seis candidatos menores tenham pouca intenção de voto individualmente, eles contribuem para fragmentar o primeiro turno.
Enquanto isso, Riedel entra na campanha como candidato à reeleição e com uma votação concentrada.
A pesquisa Real Time mostra exatamente essa fotografia: 44% para Riedel e 25% para Fábio, enquanto os demais candidatos somam parcelas menores.
8. Mas há uma segunda possibilidade
A fragmentação pode também produzir o efeito contrário.
Se a campanha reduzir rapidamente o número de candidatos competitivos — por exemplo, se o eleitor começar a concentrar votos em dois ou três nomes — a eleição pode ficar muito mais disputada.
Por isso, agosto e setembro serão decisivos para descobrir quem efetivamente terá capacidade de disputar o segundo turno.
Não é suficiente ter 5%, 8% ou 10% agora.
O candidato precisa crescer enquanto os outros perdem espaço.
9. O fator Campo Grande
Campo Grande merece uma análise separada.
A capital concentra parcela muito significativa do eleitorado estadual e historicamente tem peso decisivo na eleição para governador.
Por isso, o desempenho de cada candidato em Campo Grande provavelmente será mais importante do que sua simples média estadual.
Um candidato que tenha desempenho forte na capital pode ganhar musculatura rapidamente, especialmente com campanha digital, televisão, rádio e apoio de lideranças municipais.
Ao mesmo tempo, o interior tem características eleitorais próprias, particularmente nas regiões de Dourados, Grande Dourados, Cone Sul, Bolsão, Norte e Pantanal.
A capacidade de cada campanha de transformar intenção de voto em estrutura municipal será um dos fatores que pesquisas nacionais/estaduais não conseguem captar completamente.
10. O fator Reinaldo Azambuja
Há ainda uma questão política que não pode ser ignorada.
Reinaldo Azambuja, que derrotou Delcídio em 2014 e posteriormente governou o Estado por dois mandatos, continua sendo uma liderança relevante no cenário estadual.
Em 2026, entretanto, a disputa é diferente: Riedel é o candidato à reeleição, e o grupo político que governou o Estado nos últimos anos busca preservar sua continuidade.
Isso transforma a eleição também em uma espécie de avaliação da continuidade administrativa.
11. A questão central: primeiro turno ou segundo turno?
Aqui está a principal incógnita.
Pela legislação eleitoral, para governador ser eleito no primeiro turno é necessário obter mais de 50% dos votos válidos. Caso contrário, os dois mais votados disputam o segundo turno.
A pesquisa Real Time coloca Riedel em 44% dos votos estimulados, portanto abaixo da maioria absoluta nesse levantamento.
Mas é preciso ter cuidado com a interpretação.
44% não significa automaticamente que haverá segundo turno.
Os votos de candidatos que eventualmente abandonem a disputa, indecisos, brancos e nulos podem alterar a distribuição final.
Além disso, a pesquisa não incluiu Delcídio no cenário estimulado divulgado em 6 de agosto.
12. Minha leitura técnica do cenário
Sem fazer torcida ou atribuir “favoritismo” como opinião, os dados permitem dividir a eleição em quatro blocos de disputa:
Os demais candidatos podem influenciar a distribuição do primeiro turno, mas ainda aparecem com percentuais pequenos nas pesquisas disponíveis.
13. O que eu observaria nas próximas pesquisas
Para entender se Delcídio realmente mudou a eleição, eu acompanharia cinco números, e não apenas quem está em primeiro:
1. Riedel
Se permanecer próximo dos níveis atuais, a entrada de Delcídio terá tido impacto limitado sobre sua base.
2. Fábio Trad
Se cair significativamente, pode ser sinal de dispersão do eleitorado oposicionista.
3. Catan
Se cair, pode indicar que Delcídio está absorvendo parte do eleitorado de oposição/centro-direita. Se permanecer ou crescer, a disputa continuará pulverizada.
4. Delcídio
O número mais importante da próxima pesquisa. Precisamos saber se os 5% observados em levantamento anterior se transformam em crescimento após a oficialização.
5. Indecisos
Esse pode ser o maior reservatório eleitoral da campanha. Na pesquisa espontânea do Real Time, 51% não souberam ou não responderam, mostrando que existe uma parcela enorme do eleitorado ainda sem candidato definido.
Minha conclusão, baseada nos dados
A entrada de Delcídio não altera automaticamente a liderança de Riedel, mas altera a geometria da disputa.
Antes da oficialização, a fotografia mostrava Riedel na frente, Fábio Trad em segundo e Catan em terceiro. A entrada de Delcídio acrescenta um candidato com histórico eleitoral comprovado, que já disputou segundo turno e obteve quase 600 mil votos em 2014.
O principal efeito possível é aumentar a fragmentação do campo oposicionista. Mas também existe a possibilidade de Delcídio crescer rapidamente e transformar a disputa pelo segundo turno.
O ponto decisivo será a primeira pesquisa que inclua Delcídio depois da oficialização da candidatura. Ela permitirá medir, pela primeira vez, quanto da intenção de voto dele é nova e quanto está sendo retirado de Fábio Trad, Catan ou de outros candidatos.
E há um fator que torna essa eleição particularmente interessante: em 2014, Delcídio chegou ao segundo turno; em 2026, ele retorna ao mesmo palco político 12 anos depois, mas sem o PT e enfrentando um governador que tenta a reeleição.
As convenções terminaram em 5 de agosto e o registro formal das candidaturas vai até 15 de agosto; a propaganda eleitoral começa em 16 de agosto. Portanto, a partir de agora começa uma fase completamente diferente da eleição.
Fonte: IA
