A investigação da Operação Lívia revelou que o grupo suspeito de induzir uma adolescente de 13 anos, de Naviraí, ao suicídio também planejava novos crimes envolvendo crianças e adolescentes em diferentes estados do país. As informações foram apresentadas nesta terça-feira (4) durante entrevista coletiva concedida por representantes da Polícia Civil e do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
Segundo o coordenador do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) do MJSP, Alessandro Barreto, as apurações identificaram graves falhas nos mecanismos de moderação da plataforma Discord, utilizada pelos investigados para promover transmissões ao vivo com conteúdo violento.
Barreto classificou o material encontrado pelos investigadores como um “espetáculo de horrores”, relatando que crianças e adolescentes eram estimulados a cometer atos de extrema violência durante as transmissões.
Ao todo, cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, e um jovem de 18 anos foram alvos de mandados judiciais cumpridos nos estados do Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará e Rio de Janeiro. Conforme a investigação, o suposto líder do grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido na capital fluminense.
A operação teve início após a morte de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí, que, segundo a Polícia Civil, foi induzida pelos integrantes do grupo a praticar atos de violência contra um animal e, em seguida, tirar a própria vida durante uma transmissão acompanhada pelos demais participantes.
De acordo com Barreto, a investigação constatou que menores de idade conseguiam acessar os ambientes virtuais sem qualquer verificação efetiva de idade. Segundo ele, as transmissões permaneceram ativas por cerca de 50 minutos, período em que foram registrados diversos atos de violência.
O coordenador também destacou a frieza demonstrada pelos participantes. Segundo seu relato, após o encerramento de uma das transmissões, integrantes do grupo ainda realizaram uma enquete para saber se os espectadores desejavam assistir a novos episódios semelhantes, indicando que outra ação criminosa estava sendo organizada para o dia seguinte.
Ainda conforme o Ministério da Justiça, a Polícia Civil chegou a solicitar judicialmente o bloqueio da plataforma Discord, mas o pedido não foi acolhido. Barreto afirmou que a tragédia poderia ter sido evitada caso houvesse mecanismos mais eficientes de fiscalização e remoção de conteúdos ilícitos.
As investigações também apontaram que um adolescente conseguiu criar uma conta informando, de forma fraudulenta, o ano de nascimento de 1877, o que demonstraria falhas no sistema de verificação de idade adotado pela plataforma.
Outro dado revelado durante a coletiva é que os investigadores impediram uma nova ação do grupo. Segundo Barreto, outra vítima já havia sido escolhida pelos suspeitos, mas a atuação policial evitou que o plano fosse executado.
As apurações indicam que os investigados atraíam crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade por meio de plataformas digitais, onde promoviam desafios violentos, incentivavam práticas criminosas e exerciam pressão psicológica sobre as vítimas.
Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos celulares, computadores e outros equipamentos eletrônicos que passarão por perícia. Também foram localizados materiais relacionados à apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil.
A análise do material apreendido deverá auxiliar na identificação de outros integrantes da organização criminosa, de possíveis vítimas e da estrutura utilizada pelo grupo para praticar os crimes.
Os investigados respondem, em tese, pelos crimes de homicídio qualificado e organização criminosa. O caso tramita sob segredo de Justiça, e novas fases da operação não estão descartadas.
Onde buscar ajuda
Pessoas em sofrimento emocional podem procurar atendimento pelo telefone 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV), disponível gratuitamente em todo o país. Também é possível buscar acolhimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), nas unidades básicas de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e em outros serviços especializados de apoio psicológico.

