O suicídio de uma adolescente de 13 anos em Naviraí levou a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul a desmantelar uma rede criminosa especializada em aliciar crianças e adolescentes por meio de plataformas digitais. Segundo as investigações, o grupo manipulava as vítimas com desafios extremos, automutilação e transmissões ao vivo que incentivavam o suicídio.
A investigação resultou na deflagração da Operação Lívia, realizada nesta terça-feira (4), sob coordenação da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), em parceria com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), da Secretaria Nacional de Segurança Pública, vinculada ao Ministério da Justiça.
Segundo as investigações, o grupo utilizava plataformas digitais para localizar adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional, estabelecer vínculos de confiança e submetê-los a um processo contínuo de manipulação psicológica, com desafios de violência crescente que, em alguns casos, terminavam em suicídio.
Durante coletiva de imprensa em Brasília, o secretário nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Victor Oliveira Fernandes, afirmou que os criminosos atuavam principalmente por meio do Telegram e do Discord, onde promoviam desafios de automutilação e incentivavam suicídios transmitidos em tempo real.
De acordo com ele, a morte da adolescente de Naviraí ocorreu justamente em um dos episódios investigados.
Organização atuava em grupos fechados
Conforme a Polícia Civil, as primeiras diligências mostraram que o caso não se tratava de um fato isolado. A análise dos equipamentos e das evidências digitais permitiu identificar uma organização estruturada que recrutava adolescentes em diferentes regiões do país.
Após conquistar a confiança das vítimas, os investigados passavam a exercer controle psicológico por meio de ameaças, isolamento social, humilhações e desafios cada vez mais violentos. Entre as práticas identificadas estão automutilação, exposição degradante e incentivos ao suicídio.
A investigação também localizou outra vítima em outro estado e aponta para a existência de mais adolescentes envolvidos que ainda não foram identificados.
Operação em cinco estados
Com base nas investigações, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão contra adolescentes investigados e um mandado de prisão contra um adulto.
As ações ocorreram simultaneamente em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará. Policiais da DEPCA acompanharam pessoalmente parte das diligências realizadas no Rio de Janeiro e no Ceará.
Celulares, computadores, notebooks e outros equipamentos eletrônicos foram apreendidos e serão periciados para identificar novos integrantes da organização, localizar possíveis vítimas e aprofundar as investigações.
Plataformas também serão alvo de apuração
O Ministério da Justiça informou que encaminhará à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) um pedido para apurar a atuação das plataformas Discord e Telegram.
Segundo a pasta, há indícios de que os serviços foram utilizados pelos criminosos para recrutar adolescentes, organizar grupos fechados e disseminar conteúdos relacionados à automutilação e à indução ao suicídio.
As investigações continuam e novas medidas poderão ser adotadas conforme o avanço da perícia nos materiais apreendidos.

