Levantamento inédito sobre controle socioambiental da cadeia da carne bovina apontou que 18 das 21 empresas frigoríficas avaliadas em Mato Grosso do Sul receberam nota zero em critérios relacionados ao combate ao desmatamento no Cerrado e à rastreabilidade do gado.
O estudo analisou 225 empresas responsáveis por 262 plantas frigoríficas em todo o Cerrado brasileiro. Em Mato Grosso do Sul, foram avaliadas 27 unidades instaladas em 19 municípios, com base em políticas ambientais, metas de controle e capacidade de monitoramento de fornecedores diretos e indiretos.
Entre as empresas sul-mato-grossenses, apenas três conseguiram pontuação acima de zero. A Minerva S.A. obteve nota 38,32, enquanto a JBS S.A. alcançou 37,74 — ambas enquadradas na categoria de baixo compromisso socioambiental. Já a Naturafrig Alimentos Ltda. recebeu 21,36 pontos, sendo classificada como de compromisso muito baixo.
Segundo os critérios do ranking, as notas variam de 0 a 100. Empresas com pontuação acima de 90 são consideradas de compromisso muito alto contra o desmatamento. Nenhuma companhia avaliada no Cerrado atingiu níveis intermediários, altos ou muito altos.
A Minerva possui unidade em Batayporã. A JBS opera plantas em Anastácio, Campo Grande, Iguatemi e Ponta Porã. A Naturafrig atua em Nova Andradina e Rochedo.
O relatório também apontou falta de transparência das empresas avaliadas. Nenhuma respondeu ao questionário enviado pelos organizadores para detalhar práticas de monitoramento e controle da cadeia produtiva.
Os pesquisadores afirmam que a ausência de respostas não comprova compra de gado oriundo de áreas desmatadas, mas indica baixa transparência ativa. Por isso, a análise utilizou informações públicas, como auditorias independentes, documentos oficiais e políticas empresariais divulgadas.
Outro ponto destacado foi a fragilidade no controle dos fornecedores indiretos — propriedades por onde o gado passa antes de chegar à fazenda que vende diretamente ao frigorífico. Segundo o estudo, nenhuma empresa apresentou evidências suficientes de monitoramento efetivo dessas etapas da cadeia.
Sem rastreamento adequado, animais podem ser transferidos de áreas com desmatamento ou outras irregularidades para fazendas regularizadas antes do abate, dificultando a identificação da origem do rebanho.
No cenário nacional, a Marfrig liderou o ranking, seguida por Masterboi, Minerva, JBS, Cooperfrigu, Carnes Boi Branco e Plena Alimentos.
Apesar disso, o quadro geral foi considerado crítico. Das 225 empresas avaliadas, 216 receberam classificação de compromisso muito baixo contra o desmatamento. Apenas nove ficaram na categoria de compromisso baixo.
O estudo também destaca que os sistemas de monitoramento da cadeia da carne foram historicamente desenvolvidos para atender demandas relacionadas à Amazônia, deixando o Cerrado em segundo plano.
Na Amazônia, os chamados TACs da Carne estabeleceram critérios de auditoria e monitoramento para frigoríficos. Já no Cerrado, ainda não existe mecanismo semelhante em vigor.
Os pesquisadores mencionam como avanço o Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024. No entanto, o documento não prevê punições em caso de descumprimento, o que limita sua efetividade.
O levantamento aponta ainda que o Cerrado possui cerca de 973,7 mil propriedades com áreas de pastagem de pelo menos um hectare. Apenas 22% dessas fazendas estão dentro da Amazônia Legal, região historicamente atendida pelos sistemas de rastreabilidade dos frigoríficos. As demais permanecem fora da área efetivamente monitorada.
O Cerrado ocupa 23,3% do território brasileiro e já perdeu cerca de 93 milhões de hectares de vegetação nativa, quase metade de sua cobertura original. Mais da metade dessa área foi convertida em pastagens. Em 2024, o bioma registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada do país, com 652,1 mil hectares devastados.
A pesquisa faz parte de uma parceria entre o Imazon e o Instituto O Mundo Que Queremos. Desde 2022, o Radar Verde monitora o controle socioambiental de frigoríficos na Amazônia Legal e de grandes grupos varejistas. Esta foi a primeira edição que incluiu empresas com atuação no Cerrado.
O Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frio, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul) foi procurado, mas não havia se manifestado até a publicação do levantamento.
