O secretário estadual de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, Antonio Carlos Videira, afirmou que facções criminosas têm ampliado sua atuação política nas regiões de fronteira e já injetam recursos em campanhas eleitorais para fortalecer a influência territorial e econômica. Em entrevista ao Campo Grande News, o secretário disse que organizações como o PCC e o Comando Vermelho enxergam as cidades-gêmeas da fronteira com Paraguai e Bolívia como estratégicas para o controle do tráfico de drogas, armas e mercadorias ilegais.
Segundo Videira, o crime organizado deixou de atuar apenas no tráfico e passou a se infiltrar também em setores legais da economia e da política. “As facções têm interesse em influenciar cidades estratégicas e injetam dinheiro em candidaturas para ampliar poder político e territorial”, declarou. O secretário afirmou ainda que o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva já reconheceu a presença do crime organizado em setores do sistema financeiro, do Judiciário e da política.
A declaração ocorre no momento em que o governo federal lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado, iniciativa bilionária voltada ao fortalecimento das ações de segurança pública, especialmente em estados de fronteira. Para Videira, Mato Grosso do Sul ocupa posição central nessa estratégia nacional por ser uma das principais rotas de entrada de drogas e produtos ilícitos no país.
Dados citados pelo secretário apontam que cerca de 40% das 117,4 toneladas de cocaína apreendidas no Brasil em 2025 passaram pela fronteira sul-mato-grossense. O cenário, segundo ele, exige investimentos permanentes em inteligência, tecnologia, integração entre forças policiais e fortalecimento do sistema penitenciário.
Videira destacou que o Estado já começou a receber recursos federais para operações nas fronteiras, combate ao crime ambiental e enfrentamento à violência contra a mulher. Mato Grosso do Sul deverá receber mais de R$ 10 milhões para custeio de ações operacionais, além de novos equipamentos para as forças de segurança, perícia e Corpo de Bombeiros.
O secretário também ressaltou que o governo estadual prepara novos investimentos na estrutura policial. Conforme ele, o governador Eduardo Riedel deve entregar, em junho, mais de R$ 110 milhões em viaturas, armas, munições e coletes balísticos destinados aos municípios sul-mato-grossenses.
Ao comentar a atuação das facções criminosas, Videira afirmou que há uma percepção equivocada sobre a entrada de armas no Brasil. De acordo com ele, grande parte do armamento utilizado por organizações criminosas chega ao país por portos e aeroportos, e não apenas pelas fronteiras terrestres com Paraguai e Bolívia. O secretário citou que armas vindas do Oriente Médio, América do Norte e outros países fabricantes entram pelos grandes centros logísticos brasileiros antes de abastecer facções e milícias.
Na avaliação do secretário, o enfrentamento ao crime organizado precisa ir além da repressão policial. Ele defendeu ações voltadas à educação, esporte, cultura e ressocialização como forma de reduzir o consumo de drogas e impedir o recrutamento de jovens pelo crime. “Não existe solução simples para um problema tão complexo”, afirmou.
Videira também defendeu maior integração entre União, estados brasileiros e países vizinhos produtores de drogas. Segundo ele, descapitalizar as facções é um dos principais desafios atuais, já que organizações criminosas passaram a atuar em áreas como distribuição de combustíveis, transporte clandestino, serviços de internet e até contratos públicos.
Para o secretário, o fortalecimento da segurança em Mato Grosso do Sul produz reflexos nacionais. “Investir na segurança pública do Estado é reforçar o combate ao tráfico de drogas, armas e produtos ilícitos destinados principalmente aos grandes centros consumidores do país”, concluiu.

