Levantamento da Folha de S.Paulo aponta que Mato Grosso do Sul está entre os estados com maior incidência de processos por estupro de vulnerável no Brasil, com 401 casos por 100 mil habitantes, ficando atrás apenas do Distrito Federal, com 717,7, e à frente do Amapá, que tem 331,5.
O recorte municipal evidencia ainda mais a gravidade do cenário. Sete Quedas aparece na 39ª posição entre os municípios com maior incidência no país. Com cerca de 10 mil habitantes, a cidade acumula 112 processos, o que corresponde a uma taxa de 1.018,7 por 100 mil moradores — mais que o dobro da média estadual. Já Iguatemi ocupa a 61ª colocação, com índice de 811,1 processos por 100 mil habitantes, também bastante elevado.

A reportagem analisou 40,5 mil processos encerrados entre 2020 e janeiro de 2026 em tribunais estaduais de todo o Brasil. Os dados foram compilados com base em informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), revelando um sistema judicial sobrecarregado e com baixa capacidade de resposta.
Os números chamam atenção: 93% das ações não avançaram além da fase inicial, enquanto apenas 2,8% resultaram na execução da pena. Na prática, a maior parte dos casos termina sem uma decisão definitiva — nem condenação, nem absolvição — o que prolonga a sensação de impunidade.
Entre os principais fatores que explicam esse desfecho estão a prescrição dos crimes, a insuficiência de provas, a morte do acusado, a desistência da vítima ao longo do processo e falhas nas etapas de investigação. A lentidão também é um problema relevante: em média, a prisão definitiva ocorre 3,6 anos após o início da ação judicial.
No cenário nacional, o estupro de vulnerável representa a maioria dos casos. Três em cada quatro processos por estupro no Brasil envolvem vítimas com menos de 14 anos ou pessoas sem capacidade de consentir. Dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Sinesp) mostram que mulheres foram 84% das vítimas em 2025 e 2026, com uma média alarmante de 157 denúncias por dia.
Subnotificação agrava o problema
Além das dificuldades no andamento dos processos, especialistas destacam a subnotificação como um dos principais entraves para dimensionar a real extensão da violência. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que ocorram cerca de 822 mil casos de estupro por ano no país, mas apenas 8,5% são formalmente registrados.
Esse descompasso entre a realidade e os dados oficiais evidencia um cenário ainda mais preocupante: muitos crimes sequer chegam ao conhecimento das autoridades, enquanto outros acabam interrompidos antes de qualquer decisão judicial.
O resultado é um sistema em que vítimas e familiares enfrentam longos períodos de espera por justiça, frequentemente sem um desfecho claro. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a dificuldade na produção de provas, a fragilidade das investigações e a sobrecarga do Judiciário estão entre os principais fatores que contribuem para o alto número de processos sem conclusão.

