“O que vai ficar é a vida que a gente teve compartilhada”. A reflexão é do advogado Tiago Pitthan, de 47 anos, que decidiu transformar a própria despedida em um ato de celebração. Diagnosticado com câncer de intestino em estágio avançado, ele está organizando o próprio velório — ainda em vida.
O convite, publicado recentemente nas redes sociais, rapidamente repercutiu e provocou reflexão ao desafiar um dos maiores tabus da sociedade: falar sobre a morte de forma aberta, leve e consciente.
Em entrevista ao Primeira Página, Tiago contou que começou a sentir dores intensas em 2024. Após semanas de incerteza, veio o diagnóstico que costuma assustar — mas, para ele, trouxe clareza.
“Eu já estava há dois meses sem conseguir comer direito, perdendo peso e sem entender o que estava acontecendo. Quando recebi o diagnóstico, foi um alívio. Finalmente eu sabia quem era o inimigo e podia enfrentá-lo”, relembrou.
Ele iniciou o tratamento com determinação, mas, após uma segunda cirurgia, recebeu a notícia de que o câncer havia se espalhado. Em metástase, a doença passou a exigir cuidados paliativos, voltados à qualidade de vida.
Foi nesse momento que surgiu a decisão de celebrar a própria trajetória ao lado de quem ama.
“Se eu vou partir antes da hora, quero comemorar a vida que tive. Quando perdi meu pai, em 2024, o velório dele foi leve, cheio de histórias e risadas. Só faltava ele ali com a gente. Aquilo ficou na minha cabeça. Eu pensei: o meu velório precisa ser diferente. Eu quero estar presente”, contou.
A ideia, inicialmente, causou estranhamento entre amigos e familiares. Muitos consideraram a proposta difícil de assimilar. Com o tempo, no entanto, o sentido do gesto passou a ser compreendido.
“A proposta é simples: fazer algo leve, cheio de afeto e conexão. Quando as pessoas entendem isso, tudo muda. A morte começou a fazer mais sentido para mim depois que perdi meu pai. E eu passei a pensar: o que é a morte diante de tudo que foi vivido?”, refletiu.
Tiago também recorre a um verso de Gilberto Gil para expressar sua visão: “Eu não tenho medo da morte, tenho medo de morrer”. Para ele, o receio está no processo — e não no fim.
“Tenho medo de sofrer, de como vai ser esse caminho. Mas da morte em si, não. Eu tive uma vida muito boa. Vou deixar memórias, histórias, afetos. Esse é o meu legado: a alegria de viver e a consciência de que a morte nunca será maior que a vida”, afirmou.
Mais do que uma despedida, o evento também é um gesto de cuidado com aqueles que ficarão.
“Existe um paradoxo: quanto mais as pessoas gostam de mim, mais elas vão sofrer com a minha partida. Então essa celebração é uma forma de amenizar isso, de ajudar a transformar a dor em saudade. Porque, no fim, o que permanece é a vida que a gente compartilhou”, concluiu.
O “velório em vida” está marcado para o dia 30 de maio, em um espaço de eventos em Campo Grande. A expectativa é reunir amigos e familiares de diversas regiões do Brasil e até do exterior, em um encontro marcado não pela despedida, mas pela celebração da vida.

