Levantamento divulgado nesta semana pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que Mato Grosso do Sul registrou 181 assassinatos de mulheres entre 2021 e 2025. Com os cinco casos de feminicídio contabilizados em 2026, o total chega a 186 mortes no período. Incluindo o de ontem em Anastácio sobe para 187. Leia matéria na capa do Blog.
Ao considerar os últimos 72 meses, a média é de três mulheres mortas por mês no Estado, colocando Mato Grosso do Sul entre as unidades da federação com maiores taxas de feminicídio do país.
O ano mais violento foi 2022, quando 44 mulheres foram assassinadas apenas pela condição de serem mulheres, o que caracteriza o crime de feminicídio.
Em 2025, a taxa de mortalidade no Estado foi de 2,7 casos para cada 100 mil mulheres — a terceira maior do Brasil. Mato Grosso do Sul ficou atrás apenas do Acre, com índice de 3,2, e de Rondônia, com 2,9. Os dados, porém, podem não refletir totalmente a realidade, já que parte dos casos não chega a ser registrada oficialmente.
Considerando o período entre 2021 e 2025, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso são os únicos estados que permaneceram entre os cinco com as maiores taxas de feminicídio em todos os anos analisados.
Em cinco anos, o número de casos em Mato Grosso do Sul aumentou 14,3%. Já na comparação entre 2023 e 2024, o crescimento foi de 10,5%. O cenário preocupa, especialmente porque, nesse período, houve intensificação de políticas públicas de proteção às mulheres, além de campanhas e ações de combate ao feminicídio, sem que os números apresentassem queda.
Desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime no Brasil, em março de 2015, pelo menos 13.703 mulheres foram assassinadas no país em razão do gênero.
Segundo o estudo, o aumento nos registros ao longo dos anos também pode indicar melhora na qualidade das notificações e maior reconhecimento do fenômeno pelas autoridades policiais.
Além disso, outros tipos de violência contra a mulher também apresentam crescimento, como ameaças, perseguição, violência psicológica, lesão corporal, estupro e tentativas de feminicídio.
Por outro lado, a pesquisa aponta que, enquanto os homicídios de mulheres em geral vêm diminuindo, os casos classificados como feminicídio têm aumentado. Isso indica que menos mulheres estão sendo mortas em contextos de violência urbana e mais em situações de violência doméstica ou familiar.
Perfil dos feminicídios
O estudo também analisou a distribuição dos casos de acordo com a estrutura dos municípios. Em 2024, a maior parte dos feminicídios ocorreu em cidades com até 50 mil habitantes — locais que geralmente possuem menor infraestrutura de atendimento especializado às vítimas de violência.
Nos municípios com até 20 mil habitantes e naqueles entre 20 mil e 50 mil moradores, a taxa registrada foi de 1,8 morte para cada 100 mil mulheres.
À medida que o tamanho da população aumenta, o índice diminui. Em cidades com 50 mil a 100 mil habitantes, a taxa é de 1,4; nos municípios entre 100 mil e 500 mil habitantes, 1,2; e nas cidades com mais de 500 mil moradores, 1,1 caso.
Mesmo diante desse cenário, apenas 29,3% dos municípios de pequeno porte possuem ao menos um serviço da rede especializada de atendimento às mulheres. Isso significa que mais de 70% das cidades brasileiras com menos de 100 mil habitantes não contam com estruturas específicas para acolher vítimas de violência.
Quem são as vítimas
A análise de 5.729 feminicídios registrados no Brasil entre 2021 e 2024 aponta também um perfil predominante das vítimas. Entre elas, 62,6% eram mulheres negras e 36,8% brancas.
Metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos, faixa etária considerada produtiva, na qual muitas mulheres são responsáveis pelo sustento da família e pelos cuidados com filhos ou dependentes.
Na maioria dos casos, o autor do crime tinha relação afetiva com a vítima. Em 59,4% das ocorrências, o assassinato foi cometido pelo companheiro e, em 21,3%, pelo ex-companheiro. Outros familiares representam 10,2% dos casos e conhecidos, 4,2%.
Isso significa que mais de oito em cada dez feminicídios foram praticados por homens que mantinham ou já haviam mantido vínculo afetivo com a vítima. Apenas 4,9% dos crimes foram cometidos por desconhecidos.
Em relação ao local, 66,3% dos assassinatos ocorreram dentro da própria residência da vítima.
Quanto aos meios utilizados, a arma branca aparece em 48,7% dos casos, indicando confrontos diretos, geralmente dentro do ambiente doméstico. Já as armas de fogo foram usadas em 25,2% dos crimes, o que evidencia como a disponibilidade desse tipo de armamento aumenta o potencial letal em conflitos íntimos.
De acordo com o estudo, o feminicídio está diretamente relacionado às desigualdades de gênero e não pode ser explicado apenas pela lógica da criminalidade urbana. Trata-se de uma violência que ocorre, principalmente, dentro das relações familiares e afetivas, muitas vezes de forma prolongada e que, em muitos casos, poderia ser interrompida antes de chegar ao desfecho fatal caso houvesse condições institucionais adequadas para a prevenção.

