Em mais um movimento considerado arriscado por aliados, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode estar contribuindo para fragilizar a estratégia da direita em Mato Grosso do Sul na disputa pelas duas vagas ao Senado em 2026.
Em bilhete divulgado na semana passada por Michelle Bolsonaro, o ex-presidente manifestou apoio à pré-candidatura do deputado federal Marcos Pollon ao Senado. O gesto, embora simbólico, interfere diretamente em uma articulação que vinha sendo tratada como praticamente consolidada.
Até então, as duas vagas da direita eram consideradas encaminhadas para o ex-governador Reinaldo Azambuja e o ex-deputado Capitão Contar, ambos atualmente no PL. Azambuja deixou o PSDB para assumir o comando estadual do partido. Contar, por sua vez, trocou o PRTB pela nova legenda com o aval de lideranças nacionais, como Valdemar da Costa Neto, Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho.
A composição dentro da aliança que sustenta a reeleição do governador Eduardo Riedel (PP) estava praticamente pacificada. Pesquisas divulgadas ao longo de 2025 indicam Contar liderando no primeiro voto, enquanto Azambuja mantém desempenho consistente tanto na primeira quanto na segunda opção do eleitorado — combinação vista como estratégica para assegurar as duas cadeiras.
Cenário se embaralha
O bilhete de Bolsonaro, no entanto, introduz um fator de instabilidade. Para que Pollon seja efetivamente candidato, precisará ter o nome aprovado em convenção. Na prática, isso exigiria que o partido abrisse mão de Azambuja ou Contar, ambos competitivos nos levantamentos eleitorais.
A sinalização pública do ex-presidente gera constrangimento interno e altera a hierarquia previamente estabelecida. Soma-se a isso o fato de Pollon aparecer entre os últimos colocados nas pesquisas, com índices entre 2% e 3% das intenções de voto.
Quem pode se beneficiar da nova turbulência é o senador Nelsinho Trad (PSD), cujo mandato sempre foi visto com desconfiança por parte do eleitorado mais identificado com a direita no Estado.
Terceiro colocado nas pesquisas, o parlamentar nunca adotou postura claramente alinhada ao bolsonarismo, o que alimentou dúvidas sobre seu posicionamento político. Seus irmãos, o ex-deputado Fábio Trad (PT) e o vereador de Campo Grande Marquinhos Trad (PDT), declararam apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reforçando a percepção de distanciamento ideológico dentro do próprio núcleo familiar.
A chegada de Azambuja ao PL fortaleceu a estrutura partidária no Estado. Antes esvaziado, o partido deve se tornar a maior bancada na Assembleia Legislativa, com expectativa de ampliar de três para ao menos oito deputados estaduais.
Nesse contexto, a dobradinha Azambuja-Contar atendia aos interesses da maioria dos grupos envolvidos. Azambuja reúne apoio de ao menos dois terços dos prefeitos. Contar, por sua vez, concentra o eleitorado bolsonarista e vem estruturando seu projeto ao Senado desde 2023.
Em 2024, mesmo liderando pesquisas para a Prefeitura de Campo Grande, manteve o foco na disputa senatorial, estratégia que lhe garantiu capital político e previsibilidade dentro do grupo.
Anotações vazadas
A movimentação em favor de Pollon ganhou força após o vazamento de anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro indicando que o deputado teria solicitado R$ 15 milhões para não disputar as eleições, sem clareza se para o governo ou para o Senado.
No mesmo material, há menção à vice-prefeita de Dourados, Gianni Nogueira, esposa do deputado federal Rodolfo Nogueira, que teria pedido R$ 5 milhões para não concorrer, possivelmente ao Senado.
O suposto pedido atribuído a Pollon foi posteriormente desmentido por Flávio e reforçado por Jair Bolsonaro. Em relação a Gianni, não houve manifestação pública semelhante.
Analistas avaliam que as anotações manuscritas dificilmente seriam completamente desconectadas da realidade, já que o material traz observações sobre cenários eleitorais em diversos estados.
“Por que somente aqui as observações ao lado dos nomes não seriam verdadeiras?”, questiona um político da direita no Estado, sob condição de anonimato.
A avaliação interna é de que a direita tinha uma equação praticamente fechada, agora ameaçada por uma disputa interna considerada desnecessária. Como resume um interlocutor do grupo: em política, a divisão raramente termina em vitória dupla.
