Fiscais da Vigilância Sanitária Estadual apreenderam 28 ampolas de medicamentos para emagrecimento escondidas dentro da cabeça de duas bonecas do tipo “Baby Dolls”, durante fiscalização no Centro de Triagem e Distribuição dos Correios. A descoberta integra a Operação Visa-Protege e expõe a atuação de quadrilhas que abastecem um mercado clandestino milionário desses produtos.
Em apenas 15 dias de operação em Mato Grosso do Sul, as apreensões somaram cerca de R$ 5 milhões em mercadorias enviadas ilegalmente pelos Correios. Ao todo, foram recolhidos 7.200 itens, entre eles aproximadamente 5 mil ampolas e canetas emagrecedoras.
No comércio ilegal, cada unidade é adquirida por cerca de R$ 900 e revendida ao consumidor final por valores quatro ou cinco vezes superiores. O preço varia conforme a distância da região de destino. Segundo a Vigilância Sanitária, a maior parte das encomendas seguia para as regiões Norte, Nordeste e Sudeste, onde as canetas podem custar entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. Já as ampolas, compradas por R$ 400, eram revendidas por até R$ 1,2 mil.
Além dos medicamentos para emagrecimento, a fiscalização também apreendeu anabolizantes, suplementos alimentares irregulares, medicamentos abortivos e 32 cigarros eletrônicos, avaliados em cerca de R$ 5 mil.
De acordo com Matheus Pirolo, gerente de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde (SES), os riscos associados ao uso desses produtos são elevados. Ele cita que, nos Estados Unidos, há 162 mortes relacionadas ao uso de canetas emagrecedoras. No Reino Unido, são mais de 80 óbitos, sendo 19 ligados ao princípio ativo tirzepatida.
No Brasil, seis mortes estão sob investigação por pancreatite aguda necrosante, além de mais de 220 notificações de eventos adversos. Entre os casos reportados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, há quatro complicações neurológicas graves comunicadas pela Vigilância Sanitária de Santa Catarina.
“A gente cresceu ouvindo que produtos importados do Paraguai podem ser de qualidade inferior e, hoje, vemos pessoas injetando no próprio organismo substâncias vindas de lá. Isso é irracional”, afirmou Pirolo.
A operação começou antes mesmo dos alertas internacionais e do comunicado federal da Anvisa, publicado em 9 de fevereiro. Segundo o fiscal, os dados reforçam a necessidade de uso consciente desses medicamentos, sempre com prescrição médica, acompanhamento especializado, retenção de receita pelas farmácias e utilização exclusiva de produtos registrados.
Ele também destacou que os medicamentos devem ser armazenados em temperatura adequada, entre 2 °C e 6 °C, e que o tratamento precisa estar associado à mudança de hábitos. Denúncias sobre venda ilegal ou propaganda irregular podem ser feitas pelos telefones 136 ou 151.
Em 2026, a Anvisa intensificou a fiscalização e proibiu a comercialização de produtos sem registro vendidos como soluções rápidas para perda de peso. O foco inclui versões clandestinas de medicamentos injetáveis com tirzepatida, como as marcas TG e Lipoless — não reconhecidas por agências reguladoras internacionais — além da retatrutida, substância ainda em fase de testes e sem aprovação para uso em qualquer país.
