O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, descartou uma nova intervenção do poder público na Santa Casa de Campo Grande e afirmou que a saída para a crise financeira e administrativa passa pela profissionalização da gestão do hospital.
A declaração foi dada durante a primeira entrevista do projeto Frente a Frente, realizado pelo Correio do Estado, JD1 Notícias, Campo Grande News, SBT MS, TV Guanandi e A Crítica.
Questionado sobre as denúncias envolvendo a antiga cúpula da instituição e sobre a possibilidade de o poder público voltar a assumir o comando do hospital, Riedel afirmou que uma intervenção, isoladamente, não resolveria os problemas acumulados.
“Eu acho que intervenção não é a solução. A solução é a profissionalização da gestão, e isso deve sair de dentro da Santa Casa. Essa é a minha opinião pessoal. Quem tem que definir é o Conselho de Administração da Santa Casa”, declarou.
O governador lembrou que a contratualização dos serviços prestados pela Santa Casa é realizada pela Prefeitura de Campo Grande e disse que uma eventual intervenção também teria de definir quem assumiria as dívidas da instituição.
“Não é simples uma intervenção. Quem é que fica com o passivo? Quem é que fica com os R$ 600 milhões de passivos constituídos da Santa Casa: o interventor ou o CNPJ?”, questionou.
Apesar das críticas à gestão, Riedel classificou a Santa Casa como essencial para o sistema de saúde de Mato Grosso do Sul e afirmou que o governo estadual continuará destinando recursos à instituição. Segundo ele, entretanto, novos aportes devem estar vinculados a critérios de produtividade, eficiência e transparência.
“A Santa Casa sempre cobrou aumento de transferência de recursos, e eu sempre falei: vamos mudar a contratualização, vamos aumentar o recurso por produtividade, porque eu quero ver o que acontece lá dentro”, afirmou.
De acordo com os números apresentados pelo governador, o Estado transferiu R$ 98 milhões à Santa Casa em 2024 e R$ 149 milhões em 2025. Até agosto deste ano, os repasses teriam chegado a R$ 106 milhões, com projeção de se aproximarem de R$ 190 milhões até dezembro.
“Essa é uma relação de mão dupla, porque o dinheiro é da sociedade sul-mato-grossense. Eu vou cobrar eficiência e transparência sempre. O que está acontecendo na Santa Casa é uma questão que a Santa Casa vai ter que resolver”, disse.
Incentivos
Na área econômica, Riedel afirmou que pretende manter a política de incentivos fiscais caso seja reeleito. Segundo ele, os benefícios são utilizados tanto para atrair novos investimentos quanto para reduzir o peso tributário de produtos considerados essenciais.
O governador atribuiu à política de atração de empresas parte da geração de mais de 140 mil empregos em três anos e meio e relacionou a expansão dos investimentos ao crescimento da renda média e à redução do desemprego no Estado.
“Se eu continuar no governo, vou continuar a linha dos incentivos para atrair cada vez mais investimentos, capital e novos negócios para o Estado, porque eles são um motor da economia”, declarou.
Riedel argumentou que parte dos empreendimentos não seria instalada em Mato Grosso do Sul sem os benefícios tributários e, por isso, contestou a interpretação de que todo incentivo represente simplesmente perda de arrecadação.
“Incentivar algo que não existiria não é abrir mão de receita, porque essa receita não existe. Ao dar o incentivo, o Estado gera uma série de outras receitas com a ativação da economia e com as empresas que passam a participar do processo”, afirmou.
Ao tratar das contas públicas, o governador reconheceu um cenário de maior aperto em 2026 e disse que a arrecadação estadual vem crescendo abaixo da inflação. Mesmo assim, afirmou que os investimentos foram mantidos entre 12% e 15% da receita corrente líquida.
“Antes de pensar em arrecadar mais, a gente tem que pensar em gastar melhor. O Brasil gasta muito e gasta mal. Temos que olhar o tempo todo para a qualidade do gasto”, disse.
Educação
Na educação, Riedel afirmou que não vê necessidade, neste momento, de Mato Grosso do Sul recorrer a uma parceria público-privada para administrar a estrutura física das escolas estaduais, mas não descartou o modelo no futuro.
Segundo ele, uma eventual PPP ficaria limitada à construção e manutenção dos prédios. Professores, conteúdo pedagógico e responsabilidade pelo desempenho dos alunos permaneceriam sob controle do Estado.
“Se tiver viabilidade do ponto de vista financeiro e a administração puder ser mais bem gerida, é um bom caminho. No nosso caso, não temos necessidade porque temos o patrimônio constituído e uma rede de escolas muito boa”, declarou.
Riedel afirmou que o governo aplicou R$ 1,2 bilhão na reforma de aproximadamente 270 escolas estaduais, com intervenções nas redes elétrica e hidráulica, climatização, laboratórios de informática e robótica e bibliotecas.
Segurança
O governador também anunciou que o enfrentamento à violência contra as mulheres deverá integrar a grade escolar da rede estadual a partir de 2027.
Segundo Riedel, as ações de prevenção precisam começar antes de os casos chegarem às forças de segurança.
“Quando esse assunto chega à segurança pública, é porque nós já falhamos como sociedade. Precisamos criar consciência e estabelecer uma rede de proteção para que não chegue à delegacia”, afirmou.
O candidato disse ainda que mais de 20 mil servidores de 47 municípios foram capacitados para identificar sinais de violência. Citou também a implantação de salas Lilás em 72 municípios, a construção de outras duas Casas da Mulher Brasileira e mudanças nos procedimentos adotados pelas forças de segurança e pelo sistema de Justiça.
Meio Ambiente
Ao abordar a expansão da indústria de celulose, Riedel reconheceu que grandes empreendimentos provocam impactos sociais nos municípios, principalmente durante a fase de construção das fábricas.
Segundo ele, problemas enfrentados anteriormente em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo serviram de referência para que o Estado cobrasse mais contrapartidas da Arauco no projeto instalado em Inocência.
“Você vai a Inocência e vê o efeito social, mas não tem hoje o drama que tivemos em Ribas, porque as contrapartidas exigidas da empresa foram trabalhadas a partir daquele aprendizado”, afirmou.
Entre as medidas citadas pelo governador estão a construção de alojamentos fora da área urbana, transporte próprio para trabalhadores, reforço da segurança pública e implantação de uma unidade de saúde equipada para atender empregados e moradores.
Riedel também defendeu os benefícios ambientais das florestas plantadas, mas reconheceu que eventuais alterações provocadas pela atividade econômica precisam ser investigadas.
Ao mencionar a proliferação de macrófitas no Rio Pardo, afirmou que “qualquer mudança ou intervenção tem que ser olhada com cautela e corrigida”.
Desenvolvimento
Na política de desenvolvimento econômico, Riedel afirmou que uma eventual segunda gestão deverá buscar maior industrialização da produção sul-mato-grossense.
O governador disse que pretende ampliar a cadeia produtiva ligada à celulose para além do plantio de eucalipto e das grandes fábricas instaladas no Estado.
“Eu não quero parar na fábrica de celulose. Quero fábrica de papel, de produtos acabados, distribuição, rede logística e a Rota Bioceânica funcionando para levar o produto acabado para fora do País”, afirmou.
Riedel também citou a instalação do primeiro data center de Mato Grosso do Sul, em Ivinhema. Segundo ele, o empreendimento utiliza energia gerada a partir de biomassa e atende uma empresa de mineração de bitcoins.
Para a agricultura familiar, o candidato afirmou que pretende ampliar a assistência técnica, os investimentos em infraestrutura e a agroindustrialização.
Como exemplo, mencionou o apoio a pequenas unidades de processamento de mandioca destinadas à produção de farinha e outros alimentos, com o objetivo de agregar valor à produção antes da comercialização.
