Com a aproximação das eleições de 2026, quando Mato Grosso do Sul escolherá seu próximo governador, um fato chama a atenção: o PT decidiu apostar na candidatura do advogado e ex-deputado federal Fábio Trad.
Conhecido como Fabinho, o caçula dos homens da família Trad herdou a reconhecida capacidade de oratória do pai, Nelson Trad, um dos personagens mais emblemáticos da política sul-mato-grossense sempre ligado à direita.
Essa seria, naturalmente, uma das principais influências políticas de Fábio Trad. E assim foi até agosto de 2025, quando o ex-deputado decidiu ingressar no PT e buscar espaço dentro do campo político liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A chegada provocou resistência em parte da militância petista, que passou a enxergá-lo como um estranho no ninho. Não era, porém, a primeira vez que o partido precisava assimilar um nome vindo de fora de sua formação histórica.
Herança do pai
Advogado e ex-deputado federal, Nelson Trad construiu uma longa trajetória pública, iniciada antes da ditadura militar e mantida durante e depois do regime. Sua atuação ocorreu predominantemente em partidos de centro e de direita, distante, portanto, da tradição política e ideológica do PT.
Em 2010, Nelson Trad também ganhou repercussão nacional após se envolver em uma confusão com a equipe do programa CQC, dentro do Congresso Nacional. Durante o episódio, ele tentou retirar o microfone da repórter Mônica Iozzi e acabou atingindo o rosto dela. Um produtor da equipe também afirmou ter ficado ferido.
O primeiro “sapo” de fora foi Delcídio
O caso mais emblemático foi o de Delcídio do Amaral, que se filiou ao PT em 2001 com a influência de Lula e José Dirceu e o apoio do então governador Zeca do PT.
Delcídio não é catarinense. Ele nasceu em Corumbá, mas construiu boa parte de sua carreira profissional fora de Mato Grosso do Sul. Uma de suas passagens mais importantes ocorreu na Eletrosul, empresa sediada em Santa Catarina, onde se aproximou de lideranças políticas ligadas ao antigo PFL.
Antes de ingressar no PT, Delcídio havia ocupado cargos técnicos em governos de perfil mais centrista e mantido proximidade com grupos políticos adversários dos petistas. Também passou pela Petrobras durante o governo Fernando Henrique Cardoso.
Em 2001, retornou ao Estado para assumir a Secretaria de Infraestrutura no governo Zeca. No ano seguinte, já filiado ao PT, elegeu-se senador por Mato Grosso do Sul. Mesmo dentro da legenda, porém, sempre foi visto por parte da militância como um quadro importado, sem raízes nos movimentos sociais e sindicais que deram origem ao partido.
Trajetória de Fábio Trad
Fábio Trad, por sua vez, construiu sua carreira partidária principalmente no MDB e no PSD. Em diferentes momentos, adotou posições críticas aos governos petistas e permaneceu distante da esquerda partidária.
Ao ingressar no PT, afirmou que a mudança representava um “reencontro” com sua identidade política. A justificativa, no entanto, não encerrou os questionamentos.
Adversários destacam que sua trajetória foi predominantemente construída fora da esquerda e apontam uma mudança de posicionamento motivada pela disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul.
O paralelo entre os dois
Delcídio do Amaral e Fábio Trad simbolizam uma estratégia recorrente do PT sul-mato-grossense.
Diante da dificuldade histórica de formar lideranças próprias com força eleitoral suficiente para disputar o governo estadual, o partido recorre a nomes oriundos de outras tradições políticas. Nesse processo, flexibiliza sua identidade ideológica em nome da competitividade nas urnas.
Seria o PT um partido em permanente metamorfose?
Para parte do eleitorado, a mudança de Fábio Trad pode ser interpretada como uma adequação ao caminho mais conveniente para ocupar e preservar espaços políticos. Afinal, o ex-deputado carregou durante grande parte da vida pública ideias, alianças e posições distantes daquelas defendidas pela militância petista.
Nada que um fórceps eleitoral não resolva.
Mesmo antes de ingressar no PT, mas já próximo do governo federal, Fábio Trad ocupou o cargo de gerente de Controle e Integridade — também referido como gerente de Auditoria e Controle — na Embratur, entre fevereiro de 2023 e março de 2026. A remuneração mensal informada era de aproximadamente R$ 25,7 mil.
Agora, Fábio aparece no portfólio eleitoral do PT como a alternativa disponível para a disputa estadual. É, como se diz popularmente, “o que temos”. E com isso o partido vai à luta.
Na campanha, deverá contar com o apoio político e eleitoral de Lula, além de vestir definitivamente a camisa de número 13.
Fábio Trad construiu sua trajetória em legendas de centro e adotou posições frequentemente distantes do petismo antes de ingressar no partido para disputar o governo. Para os críticos, esse movimento revela uma legenda que, em vez de investir na própria militância, transforma-se em uma espécie de “barriga de aluguel” para candidaturas de ocasião.
Nessa leitura, o pragmatismo se sobrepõe à coerência partidária e alimenta a percepção de oportunismo, tanto por parte dos candidatos quanto da própria legenda.
O PT e seus novos filiados, por outro lado, argumentam que alianças e incorporações de lideranças fazem parte da dinâmica democrática e ampliam a capacidade de diálogo com diferentes setores da sociedade.
Será?
A sorte está lançada. Na corrida eleitoral, apresentar currículo, propostas concretas e projetos viáveis para Mato Grosso do Sul fará a diferença.
Delcídio: ascensão, queda e tentativa de retorno
A história de Delcídio merece um capítulo à parte. Seu percurso reúne ascensão política, duas eleições para o Senado, projeção nacional, prisão, cassação do mandato, delação premiada e tentativas frustradas de retornar à vida pública.
Depois de ingressar no PT e se eleger senador em 2002, Delcídio ganhou espaço no Congresso e presidiu a CPMI dos Correios. Em 2010, foi reeleito com 826.848 votos.
Disputou o Governo de Mato Grosso do Sul em 2006 e novamente em 2014. Na segunda tentativa, venceu o primeiro turno, mas foi derrotado por Reinaldo Azambuja na votação final.
Em 2015, quando exercia a liderança do governo Dilma Rousseff no Senado, foi preso sob acusação de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato. No ano seguinte, teve o mandato cassado pelo Senado e deixou o PT.
Delcídio tentou retornar ao Senado em 2018, mas não foi eleito. Agora, volta à disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul, desta vez pelo PRD.
Sua trajetória mostra como um nome vindo do campo técnico, com passagens por governos e grupos políticos de diferentes orientações, encontrou no PT a estrutura necessária para se transformar em uma das principais lideranças eleitorais do Estado.
Anos depois, a legenda repete a fórmula com Fábio Trad. Mudam o personagem e as circunstâncias, mas permanece a pergunta: o PT está ampliando seu campo político ou apenas cedendo sua estrutura a candidatos sem identidade histórica com o partido?
