Apesar do avanço das obras da Rota Bioceânica, entraves alfandegários, regulatórios e institucionais ainda representam um desafio para o funcionamento pleno do chamado Corredor Rodoviário de Capricórnio. A avaliação é do secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) de Mato Grosso do Sul, Artur Falcette.
Segundo o secretário, a conclusão da Ponte Internacional da Rota Bioceânica, entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, prevista para o segundo semestre de 2026, não garante, por si só, o início imediato das operações logísticas em sua capacidade total. Para isso, Brasil, Paraguai, Argentina e Chile precisarão avançar em acordos sobre alfândega, fiscalização, segurança jurídica e harmonização de normas operacionais.
“A previsão para a conclusão da ponte segue para o segundo semestre de 2026. No entanto, ainda há um longo caminho até que possamos aproveitar plenamente os benefícios da rota. Existem questões alfandegárias e legislação para serem resolvidas entre os países envolvidos”, afirmou Falcette.
O entendimento entre os governos é que será necessário um amplo esforço diplomático e técnico para integrar procedimentos de fronteira e garantir previsibilidade ao transporte internacional de cargas. Relatório elaborado após debates coordenados pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) reforça que a consolidação do corredor dependerá não apenas da infraestrutura física, mas também da capacidade institucional de integrar processos e profissionalizar a gestão das fronteiras.
O estudo também aponta preocupação com a participação reduzida do setor privado nas decisões estratégicas do projeto. Embora empresas de logística, exportadores e operadores de comércio exterior participem de reuniões, ainda não há inclusão formal desses segmentos na definição de obras, procedimentos alfandegários e funcionamento das Áreas de Controle Integrado (ACIs).
De acordo com o relatório, transportadores, despachantes aduaneiros e operadores logísticos enfrentam diretamente os gargalos do comércio exterior, mas seguem com pouca influência na elaboração das diretrizes operacionais da rota.
Com mais de 2,4 mil quilômetros de extensão, a Rota Bioceânica ligará os oceanos Atlântico e Pacífico, passando por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. O trecho considerado mais avançado é justamente a ponte sobre o Rio Paraguai, que conectará Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, à cidade paraguaia de Carmelo Peralta. A estrutura estaiada possui 1.294 metros e está com cerca de 90% das obras concluídas.
A expectativa é que o corredor se transforme em uma alternativa estratégica para exportações e importações entre a América do Sul e a Ásia, reduzindo em até 30% os custos logísticos e diminuindo em até 15 dias o tempo de transporte em comparação com rotas tradicionais, como o Canal do Panamá.
Mesmo com o potencial econômico, o governo estadual afirma que ainda não há previsão de novos investimentos públicos voltados especificamente para a operação da rota. Segundo Falcette, o interesse atual parte principalmente do setor privado, que começa a enxergar o corredor como alternativa para escoamento da produção e atração de novos negócios.
O secretário destacou que o Estado trabalha na diversificação da matriz produtiva regional, com foco em cadeias como citricultura, amendoim e indústrias de base tecnológica.
O levantamento coordenado pelo BID identificou ainda gargalos importantes nas áreas de fronteira. Atualmente, apenas os trechos entre Argentina e Chile estão habilitados para o transporte internacional de cargas, mesmo assim com problemas operacionais considerados relevantes.
Já os segmentos entre Brasil e Paraguai e entre Paraguai e Argentina ainda não estão em funcionamento. O estudo destaca que a habilitação dessas passagens será fundamental para garantir a conectividade completa do corredor.
Outro ponto considerado crítico é a futura Área de Controle Integrado entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta. Embora a construção da estrutura tenha sido aprovada pelo Dnit, o projeto ainda não passou por consulta técnica formal com o setor privado, o que pode comprometer soluções ligadas a áreas de espera, inspeções, fluxos operacionais e uso de tecnologia.
Nos bastidores, a avaliação é de que ainda faltam recursos para concluir a ACI em Porto Murtinho. O Dnit informou que é responsável pelas obras de acesso à ponte na BR-267/MS, incluindo 13,1 quilômetros de rodovia financiados pela Itaipu Binacional e pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Segundo o órgão, já foram executados mais de 895 mil metros cúbicos de terraplanagem compactada, correspondendo a cerca de 40% do volume previsto para o trecho. Também foram concluídas passagens de fauna, cercas e outras estruturas complementares.
O estudo aponta ainda que o principal desafio do Corredor Bioceânico será a criação de uma governança técnico-operacional eficiente, com integração permanente entre os países envolvidos, compartilhamento de informações e procedimentos padronizados.
A complexidade aumenta porque o Chile, apesar de participar da rota, não integra o Mercosul, ao contrário de Brasil, Argentina e Paraguai. Isso limita o uso do bloco como espaço exclusivo para definição das regras do corredor.
O documento apoiado pelo BID consolidou discussões realizadas em 19 reuniões virtuais e 10 encontros presenciais, reunindo representantes de empresas, associações empresariais, órgãos públicos e instituições de ensino. Ao todo, foram identificadas 231 oportunidades de melhoria e formuladas 264 propostas consensuais para tornar o corredor viável e competitivo.
