A proibição das bets no Brasil pode reduzir uma sangria bilionária no orçamento das famílias de Mato Grosso do Sul e abrir espaço para que recursos antes destinados às apostas voltem ao consumo, pagamento de dívidas e contratação de serviços.
Estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) calcula que o impacto das apostas sobre a economia sul-mato-grossense varia entre R$ 520,26 milhões e R$ 4,4 bilhões, dependendo do cenário considerado para os gastos das famílias.
No País, a estimativa fica entre R$ 39,2 bilhões e R$ 364 bilhões.
O cálculo considera que o dinheiro destinado às plataformas deixa de circular em outros setores da economia. Sem as bets, parte desses recursos poderá ser direcionada para alimentação, supermercados, comércio, lazer, serviços ou pagamento de dívidas.
Não significa, porém, que os R$ 4,4 bilhões serão automaticamente injetados na economia estadual. O número representa o limite superior do impacto econômico estimado pela CNC.
Comércio vê alívio para orçamento familiar
Para o presidente da Fecomércio-MS, Juliano Wertheimer, o crescimento das apostas comprometeu parte da renda disponível das famílias e contribuiu para reduzir recursos que poderiam permanecer circulando na economia local.
Segundo ele, os reflexos alcançam desde pequenos comerciantes até o mercado de trabalho, porque a redução do consumo limita faturamento, investimentos e capacidade de manutenção de empregos.
A Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG) também avalia que as apostas retiraram recursos que poderiam movimentar diferentes segmentos.
O presidente da entidade, Omar Aukar, afirma que valores gastos em plataformas deixam de passar pelo comércio, restaurantes, prestadores de serviços e outros negócios, reduzindo o efeito multiplicador do dinheiro dentro da economia local.
O setor supermercadista manifesta preocupação semelhante. Para o presidente da Associação dos Supermercados de Mato Grosso do Sul (Amas), Eder Oliveira, o avanço das apostas passou a competir até mesmo com despesas consideradas essenciais no orçamento familiar.
Justiça já registra casos milionários
O impacto das apostas também aparece em processos judiciais.
Onze ações que tramitam na Justiça de Mato Grosso do Sul envolvem apostadores que alegam sofrer de ludopatia e que movimentaram, juntos, mais de R$ 22,7 milhões nas plataformas analisadas.
As perdas apontadas nesses processos chegam a aproximadamente R$ 1,7 milhão.
Bets começam a sair do ar em outubro
A proibição foi estabelecida pela Medida Provisória nº 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25).
A MP proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional, tanto em plataformas virtuais quanto em ambientes físicos. A regra também alcança autorizações concedidas por estados e pelo Distrito Federal.
Desde a publicação da medida, as plataformas não podem mais receber novos depósitos.
Os apostadores terão até 23h59 de 5 de outubro para retirar voluntariamente os valores existentes nas contas. A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão deixar de oferecer apostas.
Entre 7 e 8 de outubro, as empresas terão de informar aos bancos os saldos restantes vinculados aos respectivos CPFs. A devolução deverá ocorrer entre 9 e 14 de outubro.
Caso os bancos não consigam efetuar o pagamento, a Caixa Econômica Federal poderá assumir a devolução dos recursos.
Segundo o governo federal, 85 outorgas haviam sido concedidas para exploração das apostas de quota fixa no País, cada uma no valor de R$ 30 milhões, totalizando R$ 2,55 bilhões pagos pelas empresas.
Fonte: Correio do Estado
