Esperas prolongadas, ônibus lotados e falhas no cumprimento dos horários consomem até quatro horas diárias de passageiros do transporte coletivo de Campo Grande. Entre caminhadas, baldeações e deslocamentos, trabalhadores e estudantes veem parte do dia ser perdida no caminho entre a casa e seus compromissos.
Os relatos, registrados nos dias 29 e 30 de outubro, mostram que as dificuldades persistem em meio ao processo de venda do Consórcio Guaicurus e às mudanças na gestão do sistema. Além da demora, usuários reclamam da conservação dos veículos e da estrutura oferecida nos terminais.
Na tarde do dia 29, a linha 061, prevista para passar às 17h03 pelo Ponto PegFácil do Shopping Campo Grande, chegou às 17h13. Depois do desembarque no Terminal Morenão, por volta das 17h50, a conexão com a linha 087 também foi marcada por atraso e superlotação. Sem espaço, passageiros viajaram nos degraus da porta de saída, situação proibida e que compromete a segurança.
Rotina começa antes do amanhecer
Para o pedreiro Ivan das Neves, a falta de previsibilidade exige sair de casa muito antes do início do expediente. Morador do Parque do Sol, ele utiliza a linha 061, passa pelo Aero Rancho e precisa estar em uma construtora na região central às 7h.
Para evitar atrasos, deixa a residência entre 4h e 5h30 e costuma chegar às proximidades do trabalho por volta das 6h10, cerca de 50 minutos antes do horário de entrada. Na volta, após as 17h, enfrenta mais de uma hora e meia de deslocamento.
“Parece que não tem horário. Passam antes do horário, passam depois do horário. Nossa, é horrível, horrível. É um castigo!”, reclama.
Também pedreiro, Cássio da Silva Marques voltou a depender dos ônibus após sofrer um acidente de motocicleta, há seis anos. Ele sai do Jardim Colúmbia por volta das 5h, embarca na linha 210 e faz conexão com a 072 para chegar, perto das 8h, à obra onde trabalha, na Chácara Cachoeira.
Além do tempo de viagem, enfrenta dificuldade para acomodar a mochila e o balde com ferramentas nos veículos cheios. O retorno repete o desgaste. “Na hora de voltar para casa, é a mesma demora, o mesmo aperto. Geralmente fico em pé. Chego tão cansado que é só para dormir”, relata.
A vendedora e estudante Karolayne Recalde, usuária do transporte coletivo há mais de dez anos, aproveita o percurso para acompanhar o curso teórico necessário à obtenção da Carteira Nacional de Habilitação. A intenção é comprar uma motocicleta e deixar de depender dos ônibus, apesar de reconhecer os riscos do trânsito.
Ela avalia que o serviço piorou ao longo dos anos e cobra ampliação da frota e contratação de mais motoristas para reduzir os atrasos e a falta de veículos.
Espera nos terminais amplia o desgaste
A doceira Rosa Maria Pontes, moradora das Moreninhas, utiliza três ônibus para chegar ao trabalho, na região do Terminal Hércules Maymone. Sai às 6h para iniciar o expediente às 8h e enfrenta tempo semelhante no retorno.
Conforme Rosa, boa parte do trajeto é consumida pelas conexões. As esperas nos terminais chegam a 20 ou 30 minutos e, quando o veículo está lotado, nem sempre é possível embarcar.
“A gente cansa mais indo e voltando do trabalho do que trabalhando”, afirma.
Ela também aponta oferta insuficiente de ônibus no fim do bairro e problemas frequentes de manutenção. Dentro dos veículos, a concentração de passageiros perto das portas dificulta a circulação e provoca discussões, mesmo quando ainda há espaço na parte de trás.
Para o estudante Cristian de Jesus, que utiliza a linha 070 no Terminal Morenão, o tempo no ponto chega a superar o período efetivamente gasto na viagem. Ele relata esperas de cerca de 25 minutos e reclama da lotação e da entrada de água nos ônibus durante a chuva.
Os problemas se estendem à estrutura do terminal. Os banheiros apresentam falta de papel higiênico e sabonete, piso molhado e odor de urina. O bebedouro dispõe apenas de torneiras, exigindo que os usuários levem copo ou garrafa.
Há ainda infiltrações e danos nas bordas das passarelas, com ferragens expostas. A identificação das linhas também apresenta dificuldades: nomes e números foram impressos e plastificados diante da baixa visibilidade das placas antigas.
Idosos e passageiros com problemas de saúde enfrentam obstáculos
A aposentada Enilda Odete, moradora do Centro-Oeste e usuária da linha 113, reclama das longas esperas para se deslocar até o Bairro Rouxinóis. Em uma das ocasiões, chegou ao terminal às 18h20 para aguardar um ônibus previsto apenas para as 19h40.
Ela conta que frequentemente precisa viajar em pé porque os assentos preferenciais nem sempre são cedidos. Também critica a retirada dos veículos de reforço após os horários de atendimento aos estudantes, o que, em sua avaliação, aumenta os intervalos e a lotação para os demais passageiros.
Vilma Coimbra, que tem fibromialgia e depressão grave, utiliza o passe livre e depende dos ônibus para seus deslocamentos. A trepidação dos veículos, principalmente dos mais antigos, agrava as dores quando passam por ruas sem asfalto ou com muitos remendos.
“A cada ‘bateção’ dessa eu sofro. As pessoas acham que é mentira, então eu nem gosto de falar”, desabafa.
Bicicleta e patinete viram alternativas
Diante das dificuldades, parte dos usuários buscou outras formas de chegar ao trabalho. O designer Vitor Benitez, morador do Tiradentes, passou a utilizar a bicicleta para ir a um edifício ao lado do Shopping Campo Grande. O percurso leva de 15 a 20 minutos em cada sentido, embora ele reconheça a hostilidade do trânsito para os ciclistas.
O gerente de loja Ywlly Adolfo, que mora perto do emprego, deixou os ônibus há dois anos e adotou o patinete elétrico. Ele afirma que economiza tempo e dinheiro e aponta os atrasos e a falta de ar-condicionado entre os principais problemas do transporte coletivo.
Agetran afirma que mantém fiscalização
Em resposta aos questionamentos sobre o serviço, a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) informou que mantém suas atividades regulares de fiscalização, mesmo com a atuação do grupo interventor no Consórcio Guaicurus.
De acordo com o órgão, o trabalho segue a Lei nº 4.584/2007 e abrange o cumprimento dos horários, a conservação dos veículos e a qualidade do atendimento à população.
Sobre o Terminal Morenão, a agência declarou que acompanha as demandas de manutenção e conservação e busca os encaminhamentos necessários para garantir condições adequadas aos usuários.
O grupo interventor do consórcio não apresentou posicionamento aos questionamentos.
