Em Tacuru, onde quase 40% da população é indígena, famílias Guarani-Kaiowá temem pela segurança após ameaças contra abastecimento de água; caso mobiliza autoridades federais.
A ameaça de envenenar a água consumida por indígenas em Tacuru, no sul de Mato Grosso do Sul, agravou o clima de insegurança nas comunidades Guarani-Kaiowá. O episódio, que resultou no afastamento de dois servidores municipais, está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) e provocou a mobilização da Força Nacional de Segurança Pública.
O município possui 10.808 habitantes, dos quais 4.256 se identificaram como indígenas no Censo de 2022, representando 39,4% da população. A maior concentração está nas comunidades Sassoró e Jaguapiré, embora dezenas de famílias também vivam na área urbana.
A Reserva Indígena Sassoró, criada em 1928, ocupa aproximadamente 1,9 mil hectares. Já Jaguapiré, homologada em 1992, possui cerca de 2,3 mil hectares. As duas áreas carregam uma trajetória marcada por disputas territoriais, resistência cultural e reivindicações históricas dos Guarani-Kaiowá.
Representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) afirmam que a violência enfrentada pelos indígenas não começou com as recentes divergências políticas. Racismo, discriminação, agressões e conflitos relacionados à posse da terra fazem parte de uma realidade denunciada há décadas.
Além da presença expressiva dos povos originários, Tacuru possui uma particularidade cultural: desde 2010, o guarani é reconhecido como língua cooficial do município, ao lado do português. A legislação prevê a valorização do idioma e sua utilização em serviços públicos.
Medo altera rotina nas aldeias
Na comunidade Sassoró, a preocupação aumentou depois da circulação de um áudio com ameaças de colocar veneno na água utilizada pelos moradores. Embora aproximadamente 98% das residências contem com abastecimento por rede encanada, a possibilidade de contaminação provocou apreensão.
O cacique Ivan Montiel, que também exerce mandato de vereador, relata que o temor ultrapassou a questão do abastecimento. Segundo ele, famílias passaram a evitar deslocamentos até a cidade, receosas de sofrer intimidações ou ataques.
A liderança afirma que a população deseja recuperar a tranquilidade e circular livremente pelo município, sem ameaças à própria segurança.
O MPF informou que, até agora, não existem indícios de que a água tenha sido efetivamente envenenada. As apurações continuam sob responsabilidade da Procuradoria da República em Dourados.
A prefeitura afastou dois motoristas do serviço público e instaurou processo administrativo disciplinar. Um deles trabalhava na infraestrutura municipal e o outro na coleta de resíduos. Conforme a administração, nenhum dos servidores exercia atividades ligadas ao fornecimento de água.
Força Nacional e ministros acompanham denúncias
A repercussão das ameaças levou o governo federal a reforçar a segurança nas comunidades indígenas. Agentes da Força Nacional passaram a realizar patrulhamento em aldeias de Mato Grosso do Sul, incluindo Sassoró.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também determinou a presença de três ministros no Estado para acompanhar a situação: Eloy Terena, dos Povos Indígenas; Janine Mello, dos Direitos Humanos e da Cidadania; e Wellington César Lima e Silva, da Justiça e Segurança Pública.
A agenda prevista para este sábado (31) inclui visitas às aldeias Taquapiri, em Coronel Sapucaia, e Sassoró, em Tacuru.
Outros episódios preocupam autoridades
A violência contra indígenas também aparece em ocorrências recentes registradas em diferentes municípios sul-mato-grossenses.
Em Japorã, Damácio Moraes, de 40 anos, foi encontrado morto na madrugada de sexta-feira (30), sob as arquibancadas do campo de futebol da Aldeia Porto Lindo. O corpo apresentava lesões na cabeça e no pescoço, e as circunstâncias são investigadas pela Polícia Civil.
Em Caarapó, um indígena de 36 anos ficou ferido após uma agressão na Aldeia Te’yikue, na noite de quarta-feira (28). Duas mulheres são apontadas como suspeitas, mas ainda não haviam sido identificadas.
As ocorrências possuem investigações independentes e, até o momento, não há informações que indiquem ligação com as ameaças registradas em Tacuru.
Enquanto as autoridades investigam os episódios, lideranças indígenas reivindicam proteção permanente, respeito aos direitos territoriais e medidas capazes de assegurar tranquilidade às comunidades.