O atraso de aproximadamente R$ 40 milhões em pagamentos a médicos ameaça provocar novas paralisações na Santa Casa de Campo Grande, incluindo a ortopedia. Segundo o Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (Sinmed-MS), cerca de 300 profissionais de diferentes especialidades estão sem receber desde junho, situação que compromete a manutenção de serviços de alta complexidade.
O alerta ocorre em meio ao anúncio de restrição dos atendimentos no hospital. Na quinta-feira (15), a direção informou que, a partir de sexta-feira (16), receberia apenas pacientes classificados como casos de urgência e emergência, em razão da insuficiência de recursos e da falta de materiais.
De acordo com o presidente do Sinmed-MS, Marcelo Santana, o último pagamento aos profissionais ocorreu em maio. Entre os médicos atingidos estão especialistas responsáveis por cirurgias cardíacas, torácicas e neurológicas, procedimentos para os quais a instituição é referência em Mato Grosso do Sul.
“O último pagamento desses médicos foi em maio e são cerca de 300 profissionais”, afirmou.
A preocupação do sindicato é que a continuidade dos atrasos amplie as dificuldades já enfrentadas pela cirurgia pediátrica e pela anestesiologia. No caso dos anestesistas, a manutenção dos serviços ocorre por determinação judicial.
A ortopedia está entre as áreas que mais preocupam a entidade, por atender centenas de vítimas de acidentes de trânsito todos os meses. Uma eventual interrupção afetaria pacientes da Capital e do interior que dependem da estrutura da Santa Casa.
“A Santa Casa é referência em alta complexidade e todos esses profissionais que estão sem receber fazem as cirurgias de coração, de tórax, são os neurologistas, áreas em que o hospital é referência”, declarou Santana.
Para o dirigente sindical, a regularização dos pagamentos é necessária para evitar novas suspensões e preservar a capacidade de atendimento. “A gente não pode deixar a Santa Casa parar”, afirmou.
Ao anunciar a limitação no recebimento de pacientes, o superintendente do hospital, Luiz Alberto Kanamura, explicou que faltam recursos para sustentar os serviços e adquirir materiais indispensáveis aos procedimentos, como insumos médicos, órteses e próteses. Os casos que não se enquadrarem como urgência ou emergência poderão ser encaminhados a outras unidades da rede de saúde.
Segundo a diretora técnica, Patrícia Berg, a Santa Casa recebe aproximadamente 110 pacientes diariamente. Apenas 20% a 25% desse total são classificados como casos urgentes, o que indica que a restrição poderá exigir o redirecionamento de grande parte da demanda.
No campo financeiro, a administração considera insuficiente a última proposta de repasse apresentada ao hospital, de R$ 37.418.741,66. Conforme os números informados pela direção, o contrato de prestação de serviços está em aproximadamente R$ 32,5 milhões mensais, enquanto a receita total proveniente do Sistema Único de Saúde (SUS) chega a R$ 35 milhões.
Mesmo com esses recursos, a instituição relata dificuldades para quitar os compromissos com os profissionais e manter o abastecimento de materiais. Somente os pagamentos atrasados aos médicos somam cerca de R$ 40 milhões, de acordo com o levantamento apresentado pelo sindicato.
Santana também relacionou a necessidade de preservar a estrutura hospitalar à expectativa de maior circulação de pessoas no Estado com a entrada em operação efetiva da ponte da Rota Bioceânica, entre Brasil e Paraguai, em Porto Murtinho. Na avaliação dele, esse cenário exige ampliação da oferta de assistência.
“Nesse cenário, ao invés de a gente aumentar leitos e ofertar mais serviços, estamos deixando de ofertar leitos. Não podemos perder a Santa Casa”, afirmou.
A direção não apresentou previsão para regularizar os pagamentos atrasados aos médicos nem para restabelecer integralmente os atendimentos abrangidos pela restrição anunciada.

