Resíduos perigosos descartados como lixo comum podem ferir trabalhadores, contaminar o meio ambiente e colocar a população em risco. Em Campo Grande, acidentes com perfurocortantes entre coletores acendem um alerta.
Uma agulha usada colocada dentro de um saco de lixo pode parecer um problema resolvido para quem a jogou fora.
Para o coletor que vai colocar a mão naquele saco algumas horas depois, o problema pode estar apenas começando.
Para o coletor que vai colocar a mão naquele saco algumas horas depois, o problema pode estar apenas começando.
E o risco não é hipotético. São dezenas de acidentes envolvendo materiais perfurocortantes registrados entre trabalhadores da coleta de lixo em Campo Grande, e a maioria das ocorrências envolve agulhas.
Não há elementos que permitam atribuir esses acidentes diretamente a clínicas, consultórios ou outros estabelecimentos de saúde. Agulhas utilizadas em residências, especialmente com a popularização de medicamentos injetáveis, também se tornaram uma preocupação recente.
Mas o dado ajuda a revelar a dimensão de um problema que merece muito mais atenção.
Material perigoso colocado no lixo comum pode terminar nas mãos de alguém. E tem terminado.
Não há elementos que permitam atribuir esses acidentes diretamente a clínicas, consultórios ou outros estabelecimentos de saúde. Agulhas utilizadas em residências, especialmente com a popularização de medicamentos injetáveis, também se tornaram uma preocupação recente.
Mas o dado ajuda a revelar a dimensão de um problema que merece muito mais atenção.
Material perigoso colocado no lixo comum pode terminar nas mãos de alguém. E tem terminado.
Lixo comum não é destino para resíduo perigoso
Clínicas médicas e veterinárias, consultórios odontológicos, laboratórios, estabelecimentos de estética, estúdios de tatuagem e diversos outros serviços geram resíduos que, conforme sua classificação, exigem procedimentos específicos de segregação, acondicionamento, coleta, transporte, tratamento e destinação.
Clínicas médicas e veterinárias, consultórios odontológicos, laboratórios, estabelecimentos de estética, estúdios de tatuagem e diversos outros serviços geram resíduos que, conforme sua classificação, exigem procedimentos específicos de segregação, acondicionamento, coleta, transporte, tratamento e destinação.
No setor automotivo, a preocupação alcança também oficinas e postos, com resíduos como óleos, produtos químicos, estopas e embalagens contaminadas.
O que não pode acontecer é simplesmente misturar resíduos perigosos ao lixo comum — ou imaginar que colocá-los na coleta seletiva resolve o problema.
Não resolve.Além do risco ambiental, existe uma cadeia de pessoas expostas antes mesmo de aquele material chegar ao destino final.
Começa dentro da própria empresa, com funcionários responsáveis pelo manuseio. Passa por quem faz a retirada e o transporte. E pode chegar ao trabalhador da limpeza urbana que recolhe um saco sem saber que, entre restos de alimentos e outros resíduos comuns, existe uma agulha, uma lâmina ou outro material capaz de atravessar a embalagem e feri-lo.
O que não pode acontecer é simplesmente misturar resíduos perigosos ao lixo comum — ou imaginar que colocá-los na coleta seletiva resolve o problema.
Não resolve.Além do risco ambiental, existe uma cadeia de pessoas expostas antes mesmo de aquele material chegar ao destino final.
Começa dentro da própria empresa, com funcionários responsáveis pelo manuseio. Passa por quem faz a retirada e o transporte. E pode chegar ao trabalhador da limpeza urbana que recolhe um saco sem saber que, entre restos de alimentos e outros resíduos comuns, existe uma agulha, uma lâmina ou outro material capaz de atravessar a embalagem e feri-lo.
Um segundo de descuido de quem descarta pode significar meses de preocupação para quem se fere.
Dependendo do material envolvido, não é apenas o corte. Vêm atendimento médico, exames, acompanhamento, possibilidade de afastamento e, principalmente, a angústia de não saber imediatamente a que aquele trabalhador pode ter sido exposto.
Dependendo do material envolvido, não é apenas o corte. Vêm atendimento médico, exames, acompanhamento, possibilidade de afastamento e, principalmente, a angústia de não saber imediatamente a que aquele trabalhador pode ter sido exposto.
A responsabilidade não desaparece com o saco de lixo
Existe uma ideia que precisa ser enfrentada: colocar alguma coisa na lixeira não significa dar destinação a ela.
Para os resíduos sujeitos a gerenciamento específico, existem regras.
Existe uma ideia que precisa ser enfrentada: colocar alguma coisa na lixeira não significa dar destinação a ela.
Para os resíduos sujeitos a gerenciamento específico, existem regras.
Os estabelecimentos geradores precisam identificar e separar corretamente seus resíduos e garantir que cada categoria siga o tratamento e a destinação previstos nas normas sanitárias e ambientais. Quando necessária a contratação de serviços especializados, coleta, transporte, tratamento e destinação devem ser realizados por operadores devidamente habilitados, com documentação que permita rastrear e comprovar o caminho percorrido pelo material.
Essa documentação também é importante diante de uma fiscalização.
Essa documentação também é importante diante de uma fiscalização.
Não se trata, portanto, apenas de alguém “vir buscar o lixo”.
Trata-se de saber quem recebeu, para onde levou e qual foi a destinação dada àquilo que saiu da empresa.
Porque a responsabilidade do gerador não desaparece quando o caminhão deixa o estacionamento.
Trata-se de saber quem recebeu, para onde levou e qual foi a destinação dada àquilo que saiu da empresa.
Porque a responsabilidade do gerador não desaparece quando o caminhão deixa o estacionamento.
Estética também está nessa discussão
Há ainda um segmento que merece especial atenção: o mercado de estética.
O crescimento acelerado de procedimentos estéticos multiplicou estabelecimentos e profissionais que podem gerar resíduos sujeitos às regras sanitárias. A própria regulamentação da Anvisa inclui serviços de estética, além de atividades como piercing e tatuagem, entre os estabelecimentos alcançados pelas normas de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde.
É um mercado no qual beleza, segurança e responsabilidade precisam necessariamente andar juntas.
Não temos dados precisos que permitam afirmar que o setor de estética seja hoje mais irregular que clínicas médicas, odontológicas, veterinárias ou outros segmentos. Fazer essa afirmação sem fiscalização e números seria precipitado.
Mas é legítimo perguntar se todos os estabelecimentos que cresceram junto com esse mercado cresceram também em conhecimento e estrutura para cumprir suas obrigações ambientais e sanitárias.
E essa é uma pergunta que a fiscalização precisa ajudar a responder.
Mas é legítimo perguntar se todos os estabelecimentos que cresceram junto com esse mercado cresceram também em conhecimento e estrutura para cumprir suas obrigações ambientais e sanitárias.
E essa é uma pergunta que a fiscalização precisa ajudar a responder.
Quem fiscaliza o que ninguém vê?
O Blog do Nélio encaminhou questionamentos aos órgãos responsáveis em Campo Grande para saber como vem sendo feita a fiscalização, qual sua frequência, quantas autuações foram realizadas e quais são as irregularidades mais encontradas.
Mas até o fechamento desta matéria nem a Vigilância Sanitária do Município, a do Estado e o Ministério da Saúde responderam os questionamentos.
O Blog do Nélio encaminhou questionamentos aos órgãos responsáveis em Campo Grande para saber como vem sendo feita a fiscalização, qual sua frequência, quantas autuações foram realizadas e quais são as irregularidades mais encontradas.
Mas até o fechamento desta matéria nem a Vigilância Sanitária do Município, a do Estado e o Ministério da Saúde responderam os questionamentos.
As respostas são importantes.
Porque estamos falando de uma obrigação que acontece quase sempre longe dos olhos do consumidor.
O paciente vê a seringa nova sendo aberta. Não vê para onde ela vai depois.
O cliente observa se a clínica é bonita e limpa. Dificilmente pergunta quem recolhe seus resíduos perigosos.
Quem leva o animal ao veterinário quer saber se ele será bem cuidado. Provavelmente nunca perguntou o que acontece com os materiais contaminados utilizados naquele atendimento.
Porque estamos falando de uma obrigação que acontece quase sempre longe dos olhos do consumidor.
O paciente vê a seringa nova sendo aberta. Não vê para onde ela vai depois.
O cliente observa se a clínica é bonita e limpa. Dificilmente pergunta quem recolhe seus resíduos perigosos.
Quem leva o animal ao veterinário quer saber se ele será bem cuidado. Provavelmente nunca perguntou o que acontece com os materiais contaminados utilizados naquele atendimento.
Talvez esteja na hora de essas perguntas também começarem a ser feitas.
Fiscalizar com rigor não significa perseguir empresas. Significa proteger quem trabalha nelas, quem utiliza seus serviços, o meio ambiente e também trabalhadores que sequer têm relação com aquela atividade.
Fiscalizar com rigor não significa perseguir empresas. Significa proteger quem trabalha nelas, quem utiliza seus serviços, o meio ambiente e também trabalhadores que sequer têm relação com aquela atividade.
Campo Grande já tem coletores sendo feridos por materiais perfurocortantes descartados inadequadamente.
Não sabemos de onde vieram as agulhas que provocaram cada um desses acidentes — e seria irresponsável fazer qualquer associação sem provas.
Não sabemos de onde vieram as agulhas que provocaram cada um desses acidentes — e seria irresponsável fazer qualquer associação sem provas.
Mas sabemos uma coisa:
Quando um resíduo perigoso é colocado onde não deveria estar, alguém adiante nessa cadeia passa a correr um risco que nunca deveria ter recebido.
E jogar esse risco no lixo não faz com que ele desapareça.
Quando um resíduo perigoso é colocado onde não deveria estar, alguém adiante nessa cadeia passa a correr um risco que nunca deveria ter recebido.
E jogar esse risco no lixo não faz com que ele desapareça.
