Uma adolescente de 14 anos investigada pela Polícia Civil teria se aproximado virtualmente de Lívia, de 13 anos, apresentado-se como sua “melhor amiga” e conquistado a confiança da menina para obter informações pessoais que posteriormente foram repassadas ao grupo suspeito de submetê-la a chantagens, ameaças e manipulação psicológica.
Lívia, moradora de Naviraí, morreu no dia 22 de julho. Segundo a investigação, as confidências feitas à adolescente teriam sido utilizadas para ampliar o controle exercido pelo grupo sobre a vítima pela internet.
As duas adolescentes nunca haviam se encontrado pessoalmente. O contato teria começado em redes sociais abertas, como TikTok e Instagram. Depois de estabelecer uma relação de confiança, a investigada teria convencido Lívia a participar de grupos fechados na plataforma Discord.
A adolescente apontada como responsável pela aproximação está entre os seis jovens apreendidos na segunda fase da Operação Lívia, deflagrada pela Polícia Civil na terça-feira (15).
De acordo com a delegada Anne Karine Sanches Trevizan, titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) de Mato Grosso do Sul, a investigada teria exercido papel ativo na manipulação da vítima.
“Essa menina manipulava para que Lívia viesse a praticar atos que fossem eventos dentro daquele grupo. Na live em que a Lívia morreu, é uma das que apresentam maior agressividade contra ela”, afirmou a delegada em entrevista ao jornal O Globo.
A polícia apurou ainda que a adolescente mantinha um relacionamento virtual com outro jovem apontado como uma das lideranças do grupo. Ele foi apreendido em Macaé, no Rio de Janeiro.
Segundo os investigadores, havia divisão de tarefas entre os participantes. Enquanto alguns integrantes eram responsáveis por se aproximar das vítimas e conquistar a confiança delas, outros organizavam transmissões pela internet, davam ordens e intensificavam as ameaças.
A Polícia Civil afirma que os adolescentes apreendidos tiveram participação efetiva nos fatos investigados em torno da morte de Lívia. Como são menores de 18 anos, eles responderão por atos infracionais análogos aos crimes apontados durante a investigação, entre eles homicídio e organização criminosa.
Na primeira etapa da Operação Lívia, um adolescente de 14 anos, morador de Aquidauana, também foi apreendido. Ele é apontado pelos investigadores como líder de uma das chamadas “panelas”, termo utilizado pelos próprios participantes para identificar os grupos virtuais.
A primeira fase da força-tarefa foi realizada em 4 de agosto e resultou na apreensão de cinco adolescentes e na prisão de um jovem de 18 anos. As medidas foram cumpridas em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.
A análise de celulares, computadores e outras mídias apreendidas durante aquela etapa permitiu aos investigadores chegar aos novos suspeitos.
Na segunda fase, foram cumpridas medidas contra adolescentes encontrados em São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Distrito Federal. A investigação agora busca definir individualmente qual teria sido a participação de cada integrante e identificar outras possíveis vítimas.
“Escravidão digital”
A Polícia Civil define como uma espécie de “escravidão digital” o método atribuído ao grupo. A prática começava com a aproximação das vítimas nas redes sociais e avançava para a criação de vínculos de confiança, obtenção de informações pessoais, manipulação psicológica, chantagem e submissão.
Os investigados procuravam principalmente crianças e adolescentes e levantavam informações sobre familiares, escola e rotina. Depois, as vítimas eram levadas para ambientes virtuais fechados, onde passavam a receber ordens.
Caso se recusassem a cumprir as determinações, segundo a investigação, informações pessoais poderiam ser divulgadas ou utilizadas em ameaças contra a própria vítima e seus familiares.
Outra estratégia identificada pela polícia era o uso de perfis falsos. Os investigados poderiam utilizar fotografias, idades e até identidades de gênero diferentes das reais para parecerem ter idade próxima à das vítimas e facilitar a aproximação.
Após conquistarem a confiança dos alvos, as conversas eram transferidas para ambientes virtuais controlados pelo grupo.
As ações violentas praticadas nesses espaços eram chamadas pelos próprios integrantes de “eventos”. O prestígio das chamadas “panelas” aumentaria de acordo com a gravidade das práticas promovidas, em uma lógica denominada pelos participantes de “hype”.
No caso de Lívia, a Polícia Civil aponta que o período mais intenso de pressão psicológica teria durado cerca de duas horas. Durante esse intervalo, integrantes do grupo teriam planejado e determinado ações à adolescente, enquanto parte deles acompanhava uma transmissão em tempo real.
A investigação identificou outras possíveis vítimas. Uma adolescente de 17 anos teria sido instigada a se ferir durante a mesma transmissão. Uma criança de apenas 7 anos também pode ter sido alvo dos investigados.
A estimativa da Polícia Civil é de que até dez crianças e adolescentes possam ter sido submetidos a algum tipo de violência, ameaça ou manipulação pelo grupo. O levantamento, porém, ainda não foi concluído.
A investigação também provocou medidas contra funcionalidades do Discord no Brasil. Em agosto, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou a suspensão das transmissões ao vivo e do compartilhamento de vídeos pela plataforma no País. A empresa recorreu da decisão, mas a medida foi mantida.
Em manifestação divulgada anteriormente, o Discord informou que desativou o servidor utilizado pelo grupo antes da morte de Lívia e afirmou que parte das atividades investigadas teria ocorrido em outras plataformas. A empresa também declarou possuir equipes dedicadas à identificação e remoção de conteúdos que violem suas regras e ao combate a grupos envolvidos em práticas criminosas.
