
Em ano de eleição, uma pergunta aparece em toda conversa política: você é de direita, de esquerda ou de centro? Tenho pensado cada vez mais que, para a vida concreta das pessoas, essa classificação importa menos do que imaginamos.
O cidadão comum quer coisas bastante simples. Quer saúde funcionando, escola boa, segurança, emprego, ruas cuidadas e oportunidade para melhorar de vida. Pouco importa se quem entrega isso veste vermelho, azul ou qualquer outra cor partidária.
Nós, no Ocidente, valorizamos democracia, eleições livres, participação popular e alternância de poder. E existem boas razões para isso. São conquistas importantes, especialmente porque permitem controlar governantes, preservar liberdades e substituir pelo voto aqueles que administram mal.
Mas o mundo também apresenta experiências que desafiam algumas de nossas certezas. A China é o exemplo mais evidente. Trata-se de um Estado governado pelo Partido Comunista Chinês, sem a competição multipartidária pelo poder nacional existente nas democracias ocidentais.
E os resultados econômicos chineses das últimas décadas são impressionantes. Segundo o Banco Mundial, cerca de 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema em aproximadamente quatro décadas. O país tornou-se também uma potência industrial, científica e tecnológica.
Amigos que visitaram a China me relatam algo interessante: encontraram pessoas muito mais preocupadas com trabalho, crescimento e melhoria das condições de vida do que com discussões sobre o modelo político. É uma impressão pessoal, naturalmente, e não permite concluir que todos os chineses pensem assim.
Também seria errado imaginar que desenvolvimento econômico torna irrelevantes liberdade, direitos individuais ou participação política. Não torna. A própria experiência histórica mostra que resultados materiais e garantias institucionais são valores diferentes, e um não substitui necessariamente o outro.
Mas a China provoca uma reflexão que considero válida para o Brasil: de que adianta discutir interminavelmente direita e esquerda se o Estado não consegue entregar aquilo que o cidadão precisa? Ideologia não tapa buraco, não reduz fila de hospital e não melhora uma escola.
Talvez devêssemos cobrar menos rótulos e mais resultados dos candidatos. Em vez de perguntar apenas se alguém é conservador, liberal, socialista ou de centro, seria melhor perguntar: qual é seu plano? Quanto custa? É possível executar? Em quanto tempo? Quem será responsável?
A eleição deveria servir justamente para isso. Democracia é importante, liberdade é fundamental, mas governo também precisa funcionar. No final, o cidadão não vive de discursos ideológicos. Vive dos resultados produzidos por aqueles que receberam o poder para governar.
