Empresas ligadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte, apontado pelo Ministério Público como sócio da presidente afastada da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, receberam R$ 9,617 milhões da operadora Santa Casa Saúde somente em 2025. De acordo com a investigação, oito empresas foram abertas pelo advogado e sete delas chegaram a funcionar no mesmo endereço, uma sala comercial pertencente a Alir.
As informações fazem parte da denúncia apresentada no âmbito da Operação Antidotum, que investiga suspeitas de irregularidades envolvendo a administração do hospital e da operadora de planos de saúde. Segundo os promotores responsáveis pelo caso, parte das empresas não possuía estrutura própria de funcionários compatível com os serviços contratados.
O Ministério Público sustenta que Paulo Duarte e Alir Terra mantiveram uma sociedade profissional mesmo depois de ela assumir a presidência da Associação Beneficente de Campo Grande, responsável pela Santa Casa, em 2023.
Segundo a denúncia, dados obtidos durante a investigação indicaram que os dois continuavam atuando conjuntamente em escritório de advocacia, patrocinavam causas em parceria, emitiam documentos profissionais comuns e compartilhavam estrutura instalada em imóvel pertencente a Alir.
O endereço apontado pelos investigadores é a sala 403 do Edifício Evidence Prime Office, na Rua Hélio Yoshiaki Ikeziri, no bairro Royal Park, em Campo Grande. O imóvel está registrado em nome da presidente afastada da Santa Casa.
Alir foi presa na sexta-feira (11), durante a Operação Antidotum. A ação cumpriu 35 mandados de busca e apreensão e seis ordens de prisão preventiva, autorizados pela Justiça.
Oito empresas
De acordo com o Ministério Público, Paulo Duarte constituiu, entre fevereiro de 2023 e outubro de 2025, oito empresas que posteriormente mantiveram contratos relacionados à Santa Casa Saúde.
Entre elas estão Duarte Soluções em Saúde Ltda., Deisse Medicamentos, Santa Cruz Saúde Gestão em Planos de Saúde Ltda., Dr. Smart Saúde Telemedicina e Tele Saúde Ltda., Dr. Tele Saúde Ltda., D & C Gráfica Rápida e Comunicação Visual, Intelectus Soluções em Saúde Ltda. e Health Life Planos de Saúde.
Os promotores afirmam que a estrutura empresarial permitiu a atuação em diferentes segmentos da operadora, incluindo serviços jurídicos, comerciais, administrativos, assistenciais, financeiros e tecnológicos.
Até janeiro deste ano, sete empresas vinculadas ao advogado estavam registradas na mesma sala pertencente a Alir Terra. Conforme a investigação, a própria conta de energia elétrica do imóvel permaneceu cadastrada em nome da presidente da Santa Casa durante o período.
Para o Ministério Público, o compartilhamento do mesmo endereço por diferentes pessoas jurídicas, todas vinculadas a Paulo Duarte e contratadas para atuar em áreas complementares da Santa Casa Saúde, é um dos indícios de que as empresas não funcionavam de forma totalmente independente.
Empresas sem funcionários
Outro ponto destacado pela investigação é a estrutura de pessoal das empresas contratadas.
Segundo dados citados pelos promotores, quatro delas — Dr. Tele Saúde, Santa Cruz, Intelectus e Health Life — não tinham funcionários formalmente registrados. Outras duas, Deisse Medicamentos e Dr. Smart, possuíam apenas um empregado cada.
Mesmo assim, conforme a denúncia, essas empresas passaram a atuar em setores considerados estratégicos da operadora, incluindo administração de benefícios, entrevistas qualificadas, telemedicina, gestão e comercialização de produtos de saúde.
Os investigadores afirmam ainda que alterações nos endereços empresariais teriam ocorrido depois que integrantes do grupo tomaram conhecimento de que a ligação das empresas com o imóvel de Alir havia sido descoberta.
R$ 9,6 milhões em pagamentos
A investigação aponta que a Santa Casa Saúde encerrou 2025 com resultado negativo de R$ 3,555 milhões. No mesmo ano, porém, empresas vinculadas a Paulo Duarte receberam R$ 9.617.738,49 da operadora.
Para os promotores, os contratos não representavam negócios completamente independentes. A suspeita é de que diferentes CNPJs tenham sido utilizados para dividir atividades que, na prática, estavam sob um mesmo núcleo de controle.
A denúncia afirma que as empresas atuavam em diversas etapas da operação do plano de saúde, desde a captação e administração de beneficiários até cobrança, atendimento assistencial, publicidade e serviços jurídicos.
Além dessas empresas, Paulo Duarte também manteve escritório de advocacia com Alir Terra. Conforme a investigação, o contrato de prestação de serviços advocatícios sofreu reajuste de 135%, passando de R$ 12,7 mil para R$ 30 mil mensais depois que Alir assumiu a presidência da instituição.
Documentos
A investigação também cita dificuldades enfrentadas por órgãos de fiscalização para obter contratos, notas fiscais e outras informações da Santa Casa Saúde.
Segundo a denúncia, a diretora da operadora, Beatriz Lemes da Silva, teria recusado o fornecimento de documentos solicitados pelo Conselho Fiscal da instituição e pela Controladoria-Geral do Estado.
Os promotores também afirmam que contratos envolvendo empresas ligadas a Paulo Duarte não teriam sido entregues à Justiça mesmo após determinação judicial.
A Operação Antidotum investiga a administração da Santa Casa e da operadora de planos de saúde e teve, em sua primeira fase, seis prisões preventivas, além do cumprimento de dezenas de mandados de busca e apreensão.
